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Mostrando postagens de 2026

PROVISÓRIO

       ''Burocracia: uma dificuldade para cada solução.''  H. Samuel           A pasta veio parar na minha mesa às 14h47 de uma terça-feira. O cheiro de mofo subiu antes que eu tocasse na capa: papel velho, café requentado, desespero. A estagiária largou a pilha com um baque surdo,  trezentas e quarenta e sete páginas ,  e disse "mais um" antes de sumir pelo corredor. Abri na primeira folha. Processo nº 45.892/2078. Requerente: Maria da Silva. Assunto: regularização de estado civil. Partes: João da Silva (original) e João da Silva (cópia).      Respirei fundo. Mais um caso de duplicação.  O Setor de Conciliação de Existências funciona no subsolo do Ministério dos Transportes, entre o arquivo morto e a sala das caldeiras. Ganhei o lugar por antiguidade, ou porque ninguém mais aguenta lidar com a papelada que o teletransporte inventou. O sistema é simples: você entra na cabine, o escâner mapeia cada áto...

MARCAS DO QUADRO

''A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida.''   Sêneca           O giz range entre meus dedos como um osso seco. Escrevo "Revolução Industrial" no quadro, mas as palavras escorregam sobre uma superfície de fantasmas. As letras não grudam mais. Não como antigamente.         Trinta anos. O mesmo quadro, as mesmas paredes verde-desbotado, o mesmo cheiro de desinfetante e tédio adolescente. Mas o ar mudou. Hoje, respira-se por intermédio telas. Os olhos dos meus vinte e cinco alunos brilham apenas com o reflexo azulado dos celulares escondidos sob as carteiras. Quando levanto a voz para chamar atenção, recebo de volta um olhar vazio, de quem espera o botão "pular anúncio" aparecer no meu rosto.      "Professor, isso cai na prova?"A pergunta, sempre a mesma. Não perguntam "por quê?" ou "como isso mudou o mundo?". Apenas "cai?". Sinto um peso no peito, familiar e cansado. Viro-me para...

A VIAGEM

  "O amor é a asa veloz que Deus deu à alma para que ela voe até o céu." - Michelangelo Buonarroti          Em seu aniversário de namoro, um jovem casal decidiu experimentar uma nova tecnologia à qual Gabriel havia tido acesso. Tratava-se de um dispositivo revolucionário, capaz de voltar no tempo para qualquer data escolhida. Gabriel queria que eles revivessem, em sua totalidade, o primeiro encontro que tiveram juntos.      Samara ficou surpresa quando o dispositivo chegou à sua casa numa enorme caixa, enquanto ela lia Crime e Castigo . Ela não conseguia entender o que havia de tão especial naquele objeto. Gabriel, então, explicou as características do dispositivo e suas instruções de uso, que eram bastante simples. Em seguida, eles se prepararam e vestiram suas melhores roupas para a viagem.      No último segundo antes de ativarem o dispositivo, o cachorro de Samara abriu a porta e, sem querer, acabou alterando a data de de...

A FLORESTA VERTICAL

''O trabalho poupa-nos de três grandes males: tédio, vício e necessidade.'' Voltaire         O meu gancho de titânio rangeu contra a argamassa solta do Edifício Século. Dezessete andares de fachada art déco escura se erguiam acima de mim, um penhasco de terracota e desdém. A cidade era um tapete de luzes cintilantes lá embaixo, um mundo separado por vidro e vento. Respirei fundo, o ar frio da altitude queimando meus pulmões. Aquele cheiro era familiar, uma mistura de fuligem antiga e abandono. Era meu território de caça. Eles me chamavam de caçador de céu, um título pomposo para um catador de lixo tecnológico das alturas. Minha empresa terceirizada me pagava para recuperar drones de entrega, aqueles zangões teimosos que emperravam em parapeitos e antenas. O trabalho sujo da nova economia.      Aquele trabalho era diferente. A mensagem chegou por um canal criptografado que eu nem sabia ainda possuir. Ofereciam o triplo da minha taxa por uma hora d...

O SUSSURRO NO VÁCUO

''Na realidade, não conhecemos nada, pois a verdade está no íntimo.'' Demócrito             O silêncio do vácuo engoliu todos os sons da nave Cronus, exceto o sussurro fantasma do sistema de suporte de vida. Nossos trajes, grossos e pálidos, rangiam com cada movimento na antessala despressurizada. A estação de pesquisa Cela-9, um tumor metálico grudado no asteróide GM-87, flutuava contra o pano de fundo de um infinito carvão. Nenhuma luz piscava em suas vigias, nenhum sinal de vida respondia aos nossos chamados. Nossas lanternas cortaram a escuridão, revelando a cicatriz de uma escotilha forçada, suas bordas retorcidas para dentro, como se algo enorme a tivesse arrancado com fria deliberação. O ar que escapava era velho, estagnado, e carregava o odor metálico e adocicado de sangue decomposto misturado ao cheiro ácido de fluidos de circuito vazados. Entramos.           O corredor principal exibia uma cartografia do caos. P...

O SEMEADOR DE FALHAS

 ''A grandeza exige sacrifícios.''   Friedrich Schiller        O visor do corredor C-17 pulsou em âmbar quando dobrei a esquina, e o som agudo atravessou o capacete como um dente batendo em vidro. O cheiro ácido denunciava algo errado antes mesmo de eu alcançar o painel, uma presença invisível que arranhava a garganta. Apoiei a mão no metal frio e puxei o mundo para trás, sentindo a pressão conhecida na base do crânio. O vazamento nunca aconteceu, o alerta recuou, e o corredor voltou a fingir normalidade. Afastei-me rápido, porque permanecer depois do conserto sempre deixava rastros, e rastros fazem perguntas.      Meu trabalho nunca exigiu aplausos, apenas silêncio contínuo. As pessoas dormiam, amavam, brigavam por ninharias, enquanto eu aparava arestas do destino com movimentos mínimos e discretos. No caminho até o núcleo, passei por um salão de cultivo onde folhas largas flutuavam sob luz artificial, e uma mulher cantava para ningué...

PREÇO DO ASFALTO

''Lutar contra a injustiça custa-me mais do que sofrê-la.'' Jeanne Roland        Meu nome é  Gael. O despertador toca às 4h17. Meu corpo já está em movimento antes da mente acordar. Escuridão úmida do quarto de taipa. Saio em silêncio, desviando do buraco no assoalho. A rua ainda pertence à noite e aos traficantes do Morro da Serpente, mas tenho um salvo-conduto: minhas pernas.      Corro  dois quilômetros até o ponto de ônibus. É meu primeiro treino do dia. O ônibus 975 chega com os faróis cegos de sono. Dentro, balanço em pé. Às 18h, volto. O centro de treinamento é meu portal para outro mundo, um mundo de linhas retas, regras justas e cronômetros que não mentem. Lá, meu tempo é o que importa. No morro, o que importa é sobreviver ao tempo.      Foi numa quarta-feira, depois do treino. Estava a três quarteirões do portão do centro, na calçada da Avenida das Flores. A via larga, lisa, que separa o bairro dos ricos da beirada d...