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Mostrando postagens de dezembro, 2025

MANUAL DE OCORRÊNCIAS INEXPLICÁVEIS microcontos

 ''Burocracia: uma dificuldade para cada solução.''   H. Samuel      O pedestre foi atropelado na faixa. O motorista parou, pediu desculpas e disse que agora prestaria mais atenção. O pedestre ficou orgulhoso de ter contribuído para um trânsito melhor.   O homem pereceu na fila do cartório. Seu óbito foi registrado três meses depois. Pontualidade nunca foi seu forte.   O advogado defendeu o erro com tanta convicção que virou lei.   O programador corrigiu o bug criando uma realidade alternativa estável.     O homem engasgou com uma castanha fitness. Faleceu em paz, sabendo que fez escolhas conscientes.    O cliente foi arrastado para o inferno e voltou porque faltava um comprovante.¹   O aplicativo avisou “última chance”; ninguém entendeu se era promoção ou existência.   O homem morreu trabalhando sendo lembrado no mural de metas batidas.        A cidade afundou lentamente;...

PORTA DO SONHOS

"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." H. P. LOVECRAFT     Meu nome é James, e o concreto tem pulso. Não é metáfora. Coloco a mão na parede úmida do corredor B-7 e sinto: uma pulsação baixa e lenta, como um coração em hibernação enterrado na rocha. O ar cheira a ozônio e carne enlatada vencida há décadas. Os outros aqui,  os homens de jaleco branco com expressões de quem esqueceu a textura da luz solar, dizem ser a umidade nos tubos. Eu sei que mentem.   Sinto o mesmo pulso no chão, nas vigas, na tampa do duto de ventilação acima da minha cama. Às três e quatorze da madrugada, sem falta, o duto range. Como se algo pesado e mole se arrastasse por ele, parando exatamente sobre meu peito. Fico imóvel, a respiração presa, ouvindo o silêncio carregado que vem depois. Um silêncio que escuta de volta.   Os corredores aqui nunca terminam da maneira correta. Viro uma esquina que...

MEMÓRIA RESIDUAL

 ''A memória não tanto produz, mas revela a identidade pessoal, ao nos mostrar a relação de causa e efeito existente entre nossas diferentes percepções.''  David Hume      O ar no meu estúdio sempre cheirou a ausência. Lavanda e silício. Como neuroarquiteto, eu, Leo, desfazia paisagens mentais para clientes ávidos por novas habilidades. Via memórias se materializarem como lugares: uma casa à beira-mar, um jardim noturno. Minha tarefa era desfiar esses espaços íntimos, tijolo emocional por tijolo, até sobrar somente o vazio contratado. Um pianista trocou o rosto da mãe pelos prelúdios de Rachmaninoff; um CEO trocou sua adolescência por algoritmos financeiros. Eles sempre saíam com os olhos um pouco mais leves e um pouco mais mortos.      A descoberta veiomediantee um gosto fantasma na língua, morango silvestre e concreto molhado, uma memória alheia insistente. Rastreando os dados, encontrei não a dissipação, mas um desvio elegante...

CARTUCHOS NA MADRUGADA

 ''A Realidade do Rio de janeiro Supera qualquer Ficção.'' Rodrigo Pimentel               Acordo com a sensação de que a noite me observa pelas frestas da janela, como se quisesse avisar que não terminou comigo. Escovo os dentes devagar, observando meu reflexo enquanto tento decifrar se o cansaço vem do corpo ou da alma. A água fria do tanque escorre pelos meus braços e sinto o choque térmico me acordar melhor do que café. A farda descansa sobre a cadeira como um convite e uma sentença ao mesmo tempo. Eu a visto peça por peça, sentindo o peso acumulado dos anos, lembrando que cada fiapo de tecido já carregou suor, medo, sangue e teimosia. Enquanto prendo o colete, penso no salário que mal acompanha o custo de viver, na falta de equipamento, nas decisões de quem nunca pisou num beco dizendo como devo entrar nele. E mesmo assim, algo dentro de mim insiste em seguir. Talvez seja loucura, talvez seja coragem. Talvez não exista diferença. ...

O JARDIM DE VIDRO E SOMBRA

  Não importa onde você esteja, você sempre estará olhando para a mesma lua que eu. (Querido John)   Meu refúgio não era um lugar grandioso ou mágico aos olhos de qualquer outro. Era um jardim abandonado nos limites da cidade, onde as rosas cresciam com pétalas de vidro fino e sussurravam canções de ninar quando a lua as beijava. Foi entre essas belezas perigosas que o vi pela primeira vez. Gabriel parecia deslocado, um ponto de interrogação humano em um mundo de exclamações naturais. Seus óculos repousavam sobre um nariz franzido em concentração, os olhos escuros por trás das lentes estudando uma trepadeira de jasmim-estrela, cujas flores pulsavam com uma luz suave. Seus cabelos negros e lisos caíam sobre sua testa, quase tocando a armação dos óculos. Ele não me viu, não imediatamente. Estava demasiado absorto a decifrar a música da flora. Eu, acostumada a dançar entre os espinhos das rosas de cristal sem um arranhão, congelei. Ninguém encontrava este lugar. A magia d...