''Não quero a beleza, quero a identidade.''
Encontrei Lira quando o sol ainda tateava o horizonte, e o rio, inquieto, refletia cores que não pertenciam à madrugada. Caminhei até ela porque o ar ali mudava de densidade, como se aquele instante respirasse por conta própria. A jovem mantinha as mãos abertas sobre a água, e faíscas percorriam seus dedos como insetos luminosos. A correnteza formava redemoinhos sob seus pés, embora nada mais na paisagem se movesse. Senti um calor crescer no peito, não por curiosidade, mas porque algo dentro de mim reconhecia o impossível.
Aproximo-me da chamuscada, e seu olhar atravessa a paisagem como se buscasse um nome que o vento se recusa a entregar. Os troncos ao redor envergam-se discretamente, quase como se prestassem reverência ao caminho que ela escolhe. Sigo-a porque meu corpo se antecipa às escolhas da mente, guiado por presságios que eu jurava ter esquecido. Cada passo provoca um pulso suave na terra, e pequenas pétalas negras surgem antes de serem devoradas pelo ar. Não digo nada, porque qualquer palavra talvez desfaça aquele delicado estado entre vigília e sonho.
No coração da mata, encontramos Aren, ajoelhado diante de pedras cobertas por musgo que brilha sob a sombra. O homem risca o chão com firmeza, e a cada traço, os insetos noturnos interrompem o voo como se aguardassem sua próxima intenção. Sento-me ao lado do místico, sentindo o cheiro metálico que sobe da terra quente. Seu trabalho não tenta imitar rituais antigos; ao contrário, parece conversar diretamente com algo adormecido ali. A luz entre as fendas das rochas pulsa como se nos escutasse.
A chamuscada toca meu ombro, e seu calor percorre minha espinha como uma linha que procura onde ancorar. Nesse contato, memórias que eu jamais organizei despertam: vejo-me criança, ajoelhada sob uma figueira que murmurava em línguas sem boca. O místico ergue o rosto, e percebo que uma sombra viva se contorce atrás de seus olhos, refletindo criaturas que não existem fora daquele bosque. A terra vibra sob nossos joelhos, e uma rede de luz sobe do solo, fio por fio, como se quisesse alcançar nossas respirações. Sinto que algo nos mede, não com ameaça, mas com uma curiosidade que a floresta nunca revelou a ninguém.
Dou um passo à frente, guiada mais pelo instinto do que por qualquer desejo de compreender o que cresce entre as pedras. O ar se adensa, e sinto a textura do invisível contra meus dedos estendidos. A ardente aproxima-se, e o místico inclina-se, atento, como se o desfecho dependesse de uma palavra silenciosa que ainda não pronunciamos. O brilho diante de nós dilata-se, abre frestas e revela formas que não consigo decifrar. E quando a luz escolhe seu rumo, percebo que a história não termina ali, somente encontra um ponto onde o mundo se prepara para continuar.
INSPIRAÇÃO

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A frase da Clarice “Não quero a beleza, quero a identidade” encaixa perfeitamente, porque o que você escreveu não busca ser só “bonito”; ele tem identidade própria:
ResponderExcluirParabéns, Gabs!
ResponderExcluirÓtimo texto,amor.
ResponderExcluirAnsiosa pelos próximos textos.
Excelente 👏
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