''Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!''
A lama da Itália não era somente água e terra, era uma entidade viva e faminta, um lodo gelado que se agarrava às nossas botas com determinação feroz. Cada passo para frente naquela encosta encharcada era uma vitória fugaz contra a sucção que tentava nos manter presos, estáticos, alvos perfeitos para a chuva de aço que caía do céu. Os estilhaços da artilharia alemã cantavam um hino estridente e mortal, silvando por cima de nossos capacetes enquanto cavávamos covas rasas com as próprias mãos. O ar que respirávamos era uma mistura pesada de odores de pesadelo, o cheiro adocicado e nauseante de carne putrefata se misturando ao ferro do sangue recente e ao suor azedo de corpos levados ao limite. Meu uniforme, uma extensão de minha pele, estava impregnado de graxa, terra e das manchas escuras e salpicadas que eram os últimos vestígios do Manoel. A metralhadora alemã o havia despedaçado diante de mim, e um jato quente de seu sangue atingiu meu rosto como um selo de horror. Aquelas manchas eu não limpava; elas eram um relicário macabro, um lembrete permanente do preço da guerra e do amigo que deixara para trás, soterrado no barro estrangeiro.
Antes de desembarcarmos naquele inferno úmido, o treinamento no Brasil parecia um jogo brutal, mas distante. Os instrutores, com vozes que ecoavam como tiros no campo de instrução, trabalhavam para esculpir nossa humanidade, deixando para trás apenas o instinto animal de sobreviver e matar. "Esqueçam suas mães, esqueçam seus nomes! Vocês são sombras agora, e sombras não têm medo, não sangram, não choram!" Corríamos sob um sol impiedoso até que nossas pernas cediam, cavávamos trincheiras com unhas quebradas e atacávamos alvos de palha com uma fúria que precisávamos aprender a sentir. Naqueles dias, a dúvida era uma companheira constante, questionando se eu teria a fibra para suportar aquele martírio preparatório. Mas aqui, na realidade despedaçada da Linha Gótica, a dúvida se transformara em um monstro diferente. Ela sussurrava se eu conseguiria manter um fragmento de sanidade, se fechar os olhos não significaria reviver o instante em que tirei uma vida. O primeiro homem que matei era um rapaz, um alemão de cabelos tão louros que quase brilhavam sob o sol poeirento. Seus olhos, de um azul profundo, não continha ódio no último segundo, apenas um terror puro e incontestável, uma pergunta silenciosa congelada em seu olhar morto. Esse rosto, esse olhar, tornaram-se meus demônios particulares, assombrando cada momento de pausa, cada tentativa de descanso.
A transição do dia para a noite naquela terra amaldiçoada era uma mudança de um forno para um freezer. O calor do sol, quando conseguia furar a névoa de poeira e fumaça, dava lugar a um frio noturno que penetrava os ossos e congelava a alma. A adrenalina era um sabor constante na boca, um gosto de metal e pólvora que se tornara a essência da vida. A paisagem ao redor era um retrato surreal da destruição, um tapete de crateras abertas como feridas na terra, troncos de árvores retorcidos em agonia eterna e os esqueletos carbonizados de casas que um dia abrigaram famílias. Cada depressão no terreno, cada moita mais densa, era um convite à morte, uma possível emboscada. O som mais temido era o ronco distintivo da MG-42, a "Lurdinha", que cuspia projéteis com um estampido rápido e cortante, diferente do trovejar abafado de nossas armas. A tensão era uma corda de aço esticada na nuca de cada homem, vibrando com cada batida do coração, sempre prestes a se romper e liberar o caos total.
E então, o mundo explodia. A ordem para avançar chegava como um rugido, um furacão de som que nos arrancava da paralisia do medo e nos lançava para a frente. "Avante, Cobras Fumantes¹!" O grito do sargento era um chamado primitivo, despertando uma fúria surda e desesperada que habitava nosso interior. Já não éramos homens pensantes, éramos bestas guiadas pelo instinto de sobreviver e destruir. Saímos de nossas tocas de terra, um enxame de formas sujas e raivosas. Meus pés afundavam no barro traiçoeiro, mas a inércia do grupo me empurrava. Atirei, a coronha da Springfield batendo em meu ombro com um impacto reconfortante e violento. Um soldado alemão surgiu de trás dos escombros de uma chaminé, nossos olhares se encontraram por um instante infinito – e eu vi o mesmo pavor que habitava meu peito – antes que meu dedo encontrasse o gatilho. Ele foi arremessado para trás, seu corpo um boneco desengonçado. Não houve tempo para luto ou reflexão. Avancei, a baioneta fixada, e a enfiei no torso de outro soldado que carregava sua própria arma. Foi um impacto surdo e úmido, uma vibração que ecoou do aço para os meus ossos, uma sensação que ficaria queimada em minha memória para sempre. O cheiro tornou-se uma entidade própria: o sangue quente e metálico, a pólvora queimada, o odor doce e horrível de entranhas expostas. Ao meu lado, o Ricardo foi atingido por uma rajada completa no peito, seu grito um ruído breve e grotesco que se perdeu no estrondo. Eu não parei. Continuei atirando, golpeando, um autômato movido a raiva e terror, até que o carregador ficou vazio, até que a fumaça acre nos envolveu como um véu. Até que o silêncio, mais pesado e aterrorizante do que todo o barulho da batalha, desceu sobre a colina, agora povoada apenas pelos mortos.
Agora, eles dizem que estou em casa. As paredes são brancas e imaculadas, o chão de madeira não gruda nem suga, a cama é um convite ao repouso que meu corpo nega. A guerra, porém, não terminou seu serviço; ela apenas se realocou, encontrando um forte inexpugnável dentro da minha mente. Os fantasmas dos cheiros da morte são passageiros teimosos, impregnados não mais na lã do uniforme, mas nas fibras do meu ser, no ar que meus pulmões se recusam a aceitar como puro. Minha esposa repousa ao meu lado, sua respiração calma e regular é uma melodia serena de um mundo do qual fui exilado, sua paz um insulto involuntário, porém doloroso, à memória daqueles que se transformaram em carne e osso misturados ao barro eterno da Toscana.
De repente, no escuro do quarto, o silêncio da noite se transforma em algo opressivo e familiar. É o silêncio errado, o silêncio traiçoeiro. É aquele silêncio pesado, carregado de promessas de violência, que sempre precedia o ataque final das tropas alemãs. Eles devem estar se infiltrando, rastejando pelas sombras do jardim, preparando-se para o assalto final. Os *chucrutes*. Os olhos azuis e aterrorizados do rapaz que matei materializam-se na penumbra, pairando no canto do quarto, acusando-me, chamando-me de volta para aquele campo de extermínio. Um frio que não é da noite percorre minha espinha, um arrepio de puro pânico instintivo. Eles estão aqui. Eles finalmente me encontraram, mesmo aqui, no meu suposto santuário.
Um urro primitivo, rouco e carregado de um ódio que não é meu, mas da guerra, explode da minha garganta. "Saiam, seus *chucrutes* de merda! Venham! Venham me enfrentar, seus filhos da puta!" Minha mão, agindo por conta própria, encontra o metal frio e familiar no criado-mudo. Não é uma Springfield, mas a sensação de poder é a mesma. Ergo a arma, pesada e decisiva, e aponto para o teto, para os sons imaginários de botas cautelosas no sótão. Puxo o gatilho. Um clarão cega o quarto, o estampido é um golpe seco nos tímpanos. Puxo de novo. E de novo. O cheiro de pólvora queimada, aquele incenso do inferno, enche o ar, trazendo com ele uma onda de memórias tão vívidas que eu quase posso tocar. A fumaça se espalha, e no meio do caos, vejo o rosto da minha esposa, iluminado pelos flashes, seus olhos arregalados não com raiva, mas com um terror e uma pena que me cortam mais profundamente que qualquer baioneta. Ela não grita, não me repreende. Ela se levanta, seus movimentos são lentos e deliberados, e seus braços me envolvem, puxando minha cabeça trêmula contra seu peito. Ela sussurra, sua voz um porto seguro em um mar de horrores passados que ainda me afoga. Ela sabe. Nenhum teto, nenhuma parede, nenhum abraço neste mundo pacífico é capaz de me resgatar daquela terra de barro e sangue.
1. O Sabaton é uma banda sueca de heavy metal famosa por transformar grandes eventos e heróis da história militar em hinos épicos e energéticos. Eles são, de fato, "historiadores do metal". E foi exatamente isso que fizeram com a história brasileira na Segunda Guerra Mundial: a música "Smoking Snakes" é uma composição deles, dedicada especificamente aos soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB). A canção narra de forma poderosa o heroísmo e o sacrifício dos "pracinhas", citando inclusive o lema "Cobras Fumantes" e o famoso dito "A cobra está fumando", que simbolizava a incredulidade de que o Brasil iria à guerra e a sua posterior participação vitoriosa. Dessa forma, o Sabaton não apenas homenageia, mas imortaliza globalmente a bravura dos soldados brasileiros, conectando para sempre a banda sueca ao hino histórico da FEB.
Sabaton - Smoking Snakes (Legendado)

Uma leitura boa, com memórias antigas da guerra na Itália, uma ótima referência para relembrar a história do nosso Brasil.
ResponderExcluirAdorei ,amor. Ótimas referencias de guerra.
ResponderExcluirÓtimo texto!
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