“Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.” George Orwell No início, chamava-se Elias Navarro. Filólogo obsessivo, buscava vestígios de línguas extintas como quem cava em tumbas esquecidas. Seu escritório, no porão do Instituto de Linguística Antiga, era uma caverna de livros embolorados, onde o tempo andava em círculos. Ali, entre glosas deterioradas e códices apócrifos, encontrou o manuscrito. As páginas, espessas e flácidas, pareciam pele humana curtida. A costura, feita de algo que lembrava tendões ressecados, apertava os cantos com crueldade. Nenhum idioma conhecido preenchia aquelas linhas. No alto da primeira página, as letras tremulavam como se respirassem: Na’arheth K’zul . Nos primeiros dias, acreditou tratar-se de uma língua ritual, talvez fragmentos de um culto desaparecido. Mas à medida que decifrava fonemas e articulava sílabas, sentia a pressão do impossível to...
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