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Mostrando postagens de junho, 2025

CEMITÉRIO DAS PALAVRAS

“Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.” George Orwell       No início, chamava-se Elias Navarro. Filólogo obsessivo, buscava vestígios de línguas extintas como quem cava em tumbas esquecidas. Seu escritório, no porão do Instituto de Linguística Antiga, era uma caverna de livros embolorados, onde o tempo andava em círculos. Ali, entre glosas deterioradas e códices apócrifos, encontrou o manuscrito.      As páginas, espessas e flácidas, pareciam pele humana curtida. A costura, feita de algo que lembrava tendões ressecados, apertava os cantos com crueldade. Nenhum idioma conhecido preenchia aquelas linhas. No alto da primeira página, as letras tremulavam como se respirassem: Na’arheth K’zul .      Nos primeiros dias, acreditou tratar-se de uma língua ritual, talvez fragmentos de um culto desaparecido. Mas à medida que decifrava fonemas e articulava sílabas, sentia a pressão do impossível to...

FRAGMENTOS DA TERRA

 ''Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida.''   Platão        Toda sexta-feira é igual. Acordo mais cedo do que o habitual, tomo o mesmo café requentado, encaro o mesmo trajeto sufocante de duas horas até o trabalho. Não reclamo, ao menos não em voz alta. Atuo em algo razoável, ganho o suficiente para manter uma vida estável e me sustentar sem dívidas. Sou solteiro. Minha única companhia é a música  repetitiva como os dias  e um hamster marrom com branco que me observa com seus olhos minúsculos e vivos, animando meus momentos de esgotamento. Vivo a rotina sem desvios. Os dias passam como arquivos duplicados, sobrepostos até que todos se tornem cópias uns dos outros. Estou preso a um ciclo cinzento, arrastado pela corrente de uma existência medíocre.      Foi em um sábado à tarde, após uma semana particularmente pesada, que algo incomum aconteceu. Deitado no sofá, com as luzes apagadas e os olhos...

NOTAS E ACORDES

  ''E por vezes me sinto tão cansada que até deitar para dormir se torna cansativo.''   Yasmin Menashe        Toda sexta-feira à noite é o melhor momento da semana, pois estou distante do trabalho, especialmente de quem me causa problemas. O ambiente tóxico da escola suga minhas forças; sinto-me como se estivesse em Azkaban¹. Geralmente, na noite de domingo, meu descanso nunca é tranquilo. Escuto, em minha mente, as vibrações das turmas caóticas, o estudante pouco afeito ao estudo reclamando da nota e ameaçando levar seus responsáveis para contestar o básico de educação que peço dentro de sala.      Infelizmente, preciso do emprego para pagar as contas, mas minha verdadeira realização está na música. Em cima dos palcos, sinto-me verdadeiramente realizado; é o único barulho que me proporciona eterna paz, inclusive internamente.      Na segunda-feira, o único aspecto positivo é não precisar escutar abobrinhas e eventos ir...

LIMIAR DAS TRÊS REALIDADES

  ‘’As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar.’’ Leonardo da Vinci   Quando o céu de Ekaris se partiu pela primeira vez, não soaram alarmes. A ruptura rasgava o firmamento em espirais vermelhas, mas os sensores da cidade flutuante somente piscavam em silêncio, incapazes de medir a gravidade do que não era deste mundo. Um brilho se derramava da fenda como memória líquida, e onde tocava, a realidade cedia — os espelhos paravam de refletir, os relógios esqueciam os minutos, os pássaros mergulhavam sem destino. No observatório em cúpula, Gabriel pressionava teclas com precisão quase cruel. Seus olhos percorriam não apenas linhas de código, mas esquemas vibracionais ocultos entre os circuitos. A língua zanker surgia em sua mente com fluência ancestral, cada ideograma um feixe de lógica entrelaçado ao caos. A vibração nos sensores não era anomalia, mas um chamado. Ele ergueu os olhos quando sentiu a presença dela: passos firmes, aroma de terra molhada...