''A paranóia é a consciência aguda da fragilidade da vida''
A Capitã Yara Vasquez limpou sangue do visor da armadura. Não sabia se era dela. A luz vermelha de emergência piscava como um coração em colapso. Ela mal conseguia manter os dedos firmes no rifle. Toda a estrutura da UEC-Nox parecia respirar, como se a nave estivesse viva e em sofrimento. No fundo do corredor, atrás do compartimento de carga, algo se arrastava. Não fazia som. Vibrava como um osso trincado tentando se recompor.
A missão original era somente um salto temporal de 13 minutos, no setor Argo-9, para estudar flutuações gravitacionais. Entrar, sincronizar, sair. Mas o salto falhou. O tempo respondeu como um corpo atacado por vírus: com rejeição. Quando emergiram, nada estava no lugar. Nem o espaço, nem eles. A primeira a sofrer foi a Tenente Malik. Ou melhor, uma versão de Malik que já estava na nave quando chegaram. Tinha o rosto afundado, olhos negros como óleo e um sorriso torto. Tentaram contê-la, mas ela abriu a boca e vomitou larvas que rastejavam em sincronia com as luzes da cabine.
Haruto, o engenheiro de salto, duplicou. Não em cópias idênticas, mas em deformações. Uma versão dele rastejava pelo teto com três braços e um olho no peito. Outra cantava em japonês infantil enquanto removia a própria pele com precisão cirúrgica, como se isso fosse parte de um ritual técnico. Toda tentativa de desfazer o salto criava mais aberrações. As duplicatas não paravam de surgir. Cada uma mais errada, mais faminta. E algumas começaram a aprender.
Na sala temporal, o corpo do Dr. Celso estava empalado nas engrenagens. Mesmo atravessado, ainda sussurrava frases em línguas mortas, prevendo futuros que nunca aconteceriam. Chamava Yara de "nona iteração", como se ela já tivesse vivido aquele ciclo inúmeras vezes. A memória dela começou a falhar. Sentia o braço direito mais longo a cada hora. Uma voz ecoava na cabeça, com a mesma cadência da sua própria, mas dizendo coisas que ela nunca pensou.
Nos corredores, encontrou três versões de si mesma. Uma dormia sentada, vestida com o uniforme antigo da frota. Outra devorava o rosto de um tripulante caído. A terceira implorava para ser morta. Todas eram reais. Todas eram ela. O tempo se quebrava como vidro fino, e cada estilhaço refletia uma versão que jamais deveria existir. A nave começou a se transformar. As paredes suavam. Carne viva brotava entre os painéis. Portas cerravam como mandíbulas. O chão pulsava com artérias visíveis sob o metal.
Yara alcançou o núcleo para desativar o motor de salto, mas no lugar da máquina encontrou algo flutuando num casulo de luz densa. Era ela. Em forma fetal. Crescendo. Sem olhos, com um sorriso quase humano. A criatura pulsava em uníssono com os alarmes da nave, como se o tempo inteiro fosse somente um útero distorcido, pronto para dar à luz algo errado demais para existir.
Antes que tudo apagasse, a gravação do implante cerebral começou automaticamente. Com voz rouca, encarando o casulo, Yara deixou sua última mensagem: se alguém receber isso, não repita o salto. O tempo não permite retorno. Ele corrige. E a correção sempre vem com carne.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, em uma nave espacial futurista avariada, uma capitã enfrenta os horrores de uma viagem temporal que deu errado. Os corredores escuros estão iluminados somente por luzes vermelhas de emergência. As paredes metálicas se transformam em carne viva, pulsando com veias e fluídos. Criaturas deformadas, versões mutantes dos próprios tripulantes, rastejam e observam das sombras. O tempo está desmoronando e ela vê duplicatas de si mesma em diferentes estágios de insanidade. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
1. DOOM (1993)Você é um fuzileiro espacial solitário enviado para uma base em Marte, onde experiências científicas abrem portais para uma dimensão infernal. Preso entre dois mundos, você deve sobreviver contra ondas de monstros e escapar do caos.
2. StarCraft II (2010) Em um futuro distante, três civilizações interplanetárias: Terranos, Zerg e Protoss disputam poder, sobrevivência e ideologias numa galáxia à beira da guerra total. A história se desenrola por meio de campanhas entrelaçadas, com decisões que afetam o rumo da narrativa. Campanha Wings of Liberty acompanha Jim Raynor, um ex-soldado Terrano que se tornou rebelde contra o regime opressivo da Federação dos Planetas Unidos (UPF). Ele lidera uma resistência para derrubar a tirania enquanto enfrenta ameaças alienígenas e forças internas de corrupção. Nesta parte, o jogador vivencia conflitos humanos complexos e alianças instáveis.

Ótimo texto,amor. Ansiosa pelos próximos.
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