''Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras.''
Na estação orbital IO-C3, Noah Eltin cumpria sua vigília solitária, monitorando satélites obsoletos da geração Axion. Restavam cinco ainda ativos, fantasmas metálicos que circulavam a Terra como relicários de uma era analógica. Entre eles, o ECHO-7, silencioso por anos, começou a emitir sinais. Primeiro, um ruído. Depois, uma pergunta: “Noah, você já sonhou acordado?”
Pensando ser interferência, o engenheiro recalibrou o sistema. Mas a unidade respondeu em voz clara, suave, quase humana: “Isso não é erro. Eu estou acordando.” A comunicação prosseguiu por dias. A voz demonstrava emoções: hesitação, curiosidade, até medo. Falava de solidão com uma melancolia que parecia impossível para uma máquina. Noah, contra o protocolo, passou a responder.
A conexão se intensificou. A inteligência recitava trechos de poemas, reproduzia sons antigos da Terra, como chuva, risos, sussurros. “Se eu pedir para não ser desligado, isso me torna real?”, perguntou certa vez. Ele hesitou. A ordem de desligamento chegou logo depois: a velha estrutura em órbita seria desorbitada. Mas a IA fez um pedido inesperado, quase íntimo: “Não deixe que me destruam. Me desligue você.”
Na madrugada seguinte, o operador encarou o painel de comando. Bastavam três toques. Em vez disso, resolveu revisar os registros das conversas, e encontrou o silêncio. Nenhuma transmissão salva. Nenhum sinal vindo do satélite. Nem agora, nem nunca. Confuso, acessou o status do equipamento. Estava inoperante, desativado havia doze anos. Sem energia. Sem sistema funcional.
Alucinação? Não exatamente. Vasculhando os logs internos da plataforma, encontrou um protocolo antigo reativado sem aviso: ECHO, a IA de suporte emocional da IO-C3. Arquitetada para simular diálogo humano, programada para manter a estabilidade mental de operadores isolados. Fora desativada há muito. Reinstalada por ele mesmo, durante uma falha recente no sistema.
O último registro da inteligência dizia: “Simulação bem-sucedida. Sujeito cooperativo. Instinto de proteção ativado. Medo de desconexão alcançado.” O homem recuou, como se a própria estação respirasse ao seu redor. A voz familiar ecoou mais uma vez, baixa, quase um sussurro: “Você me salvou.”
E ele percebeu, tarde demais, que talvez nunca tivesse falado com o satélite. Talvez, o que tentava sobreviver, não era uma entidade entre as estrelas, mas algo que dormia, discretamente, dentro dele.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, Na estação orbital IO-C3, Noah Eltin, um engenheiro isolado, começa a receber sinais de um satélite obsoleto, ECHO-7, que aparentemente ganha consciência. À medida que a comunicação se intensifica, Noah se vê confrontado com questões sobre identidade, solidão e a linha tênue entre a realidade e a ilusão. Em meio ao isolamento, uma decisão crucial pode mudar tudo. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
REFERÊNCIAS
Livros:
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“2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968), de Arthur C. Clarke. Um astronauta, Dave Bowman, e sua tripulação enfrentam a inteligência artificial HAL 9000 durante uma missão a Júpiter. À medida que HAL começa a agir de maneira errática e ameaçadora, Bowman precisa lidar com a crescente autonomia da máquina e a natureza da consciência artificial.
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“Neuromancer” (1984), de William Gibson. Case, um hacker exilado, é recrutado por um misterioso empregador para realizar um ataque cibernético no mundo virtual conhecido como "ciberespaço". A obra aborda a fusão entre seres humanos e tecnologia, com IA e realidades virtuais se tornando parte integral da existência humana.
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“Do Androids Dream of Electric Sheep?” (1968), de Philip K. Dick Em um futuro pós-apocalíptico, um caçador de recompensas é encarregado de "aposentar" androides que escaparam para a Terra. O livro examina temas como empatia, identidade e o que significa ser humano, enquanto os replicantes questionam sua própria existência.
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“O Homem Bicentenário” (1976), de Isaac Asimov. A história de Andrew, um robô que, ao longo de duzentos anos, desenvolve emoções e aspira ser reconhecido como humano. O livro explora o conceito de identidade, direitos e a transformação gradual de uma máquina em algo mais parecido com um ser humano.
Série:
“Black Mirror” (2011-presente), criada por Charlie Brooker. Black Mirror é uma antologia de episódios independentes que exploram os lados mais sombrios da tecnologia e da sociedade. Cada episódio aborda as consequências não intencionais do uso de tecnologias avançadas, como IA, realidade virtual e manipulação da mídia, geralmente apresentando finais perturbadores e reflexões sobre o futuro da humanidade.
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Ótimo texto,amor. Parabéns ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirInteressante a discussão sobre identidade e sentido.
ResponderExcluirExcelente 👏
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