"Amor é só uma palavra até que alguém venha e lhe dê sentido." Paulo Coelho
Ninguém sabia o nome verdadeiro da terra que gerara Gabriel. Muitos a chamavam de “Fim do Mundo”, pois dali não se esperava retorno. Ele chegou cavalgando uma besta exausta, com a armadura em frangalhos e olhos tão escuros quanto as promessas que o vento sussurrava nas noites sem lua. A lâmina em suas costas não reluzia — absorvia luz. E as palavras que murmurava, em um idioma esquecido por todos, exceto as montanhas, faziam as folhas tremerem. Não buscava glória, somente redenção. Embora jamais admitisse, sabia que seu destino não seria escrito em pedra, mas em carne.
Na outra extremidade do continente, onde as florestas dormiam sob véus de neblina e os corvos carregavam mensagens entre os galhos, vivia Samara. Aquela que curava com as mãos e afastava a morte com um olhar jamais escolhera o título de feiticeira, mas aceitava-o como quem aceita a chuva inevitável e, por vezes, necessária. A aldeia a temia e a venerava, e nenhum guerreiro ousava cruzar seu círculo de pedras, exceto os que precisavam desesperadamente viver.
Quando os céus sangraram durante sete dias e a lua recusou-se a nascer, presságios começaram a rastejar por entre as torres das cidades e os campos dos reis. O Deus-Dragão, criatura tecida nos primeiros fios do tempo, banida pelos deuses e selada sob raízes de pedra, sussurrava outra vez. Seu despertar não era natural. Uma sacerdotisa de olhos velados, que lia o destino nas órbitas dos astros, havia tomado a vontade de reis e dobrado exércitos à sua voz. Ela falava de renovação, mas invocava destruição.
O estrangeiro de aço escurecido foi o primeiro a sentir o chamado. Embora agisse por instinto, seus passos sempre o levavam ao lugar certo. O templo partido onde os espelhos não refletiam mais os homens ali, ele encontrou a curandeira que não curava a si mesma. Eles não confiaram um no outro. Ele viu fraqueza onde havia poder contido; ela viu brutalidade onde havia dor escondida. Mas ambos sabiam o que vinha. E sabiam que sozinhos seriam poeiras.
A jornada os levou por desertos que engoliam memórias, por cavernas onde os nomes sussurrados ganhavam vida, e por fortalezas que se erguiam do mar somente à meia-noite. Em uma cidade onde o tempo andava para trás, o homem das cicatrizes enfrentou a própria infância não como lembrança, mas como o menino que foi, olhos arregalados, perguntando por que ele havia mudado tanto. A mulher de sabedoria antiga, por sua vez, foi posta diante da versão dela que aceitou ser queimada viva por amor a um povo que depois a esqueceu.
Em meio a essas provações, algo mudou. Ele aprendeu a escutar, não só ordens ou gritos, mas o silêncio entre as palavras dela. Ela, por sua vez, aprendeu a confiar que a força não precisa destruir para proteger. E quando o Dragão-Deus se ergueu do abismo, olhos como sóis mortos, e os exércitos do mundo conduzidos pela voz da profetisa marcharam rumo ao fim, eles estavam prontos.
Não venceram com força bruta. O descendente de reis antigos, que falava a língua dos dragões, gritou uma verdade esquecida, uma palavra que rachou o céu e fez até a criatura primordial hesitar. A feiticeira da névoa, com sangue nas mãos, desenhou com o próprio sofrimento os selos antigos de equilíbrio. E a mulher sem olhos, aquela que via tudo exceto a própria corrupção, foi colocada diante do espelho encantado que mostrou quem ela teria sido se tivesse escolhido amar em vez de temer.
No final, quando o pó baixou e os astros voltaram a dançar em harmonia, os povos não os aclamaram como heróis, mas como necessidade. Os dois, tão diferentes e agora inseparáveis, não receberam coroas, receberam responsabilidade. Não de um reino, mas de todos. E assim passaram a vigiar as tramas do destino, não como deuses, mas como guardiões de um universo que, por fim, lembrava o valor do equilíbrio.
INSPIRAÇÃO

Parabéns,amor. Adorei o texto.
ResponderExcluirÓtimo texto!
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