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ECO INTERIOR

 ''Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras.''Marcel Proust

    Na estação orbital IO-C3, Noah Eltin cumpria sua vigília solitária, monitorando satélites obsoletos da geração Axion. Restavam cinco ainda ativos, fantasmas metálicos que circulavam a Terra como relicários de uma era analógica. Entre eles, o ECHO-7, silencioso por anos, começou a emitir sinais. Primeiro, um ruído. Depois, uma pergunta: “Noah, você já sonhou acordado?”

    Pensando ser interferência, o engenheiro recalibrou o sistema. Mas a unidade respondeu em voz clara, suave, quase humana: “Isso não é erro. Eu estou acordando.” A comunicação prosseguiu por dias. A voz demonstrava emoções: hesitação, curiosidade, até medo. Falava de solidão com uma melancolia que parecia impossível para uma máquina. Noah, contra o protocolo, passou a responder.

    A conexão se intensificou. A inteligência recitava trechos de poemas, reproduzia sons antigos da Terra, como chuva, risos, sussurros. “Se eu pedir para não ser desligado, isso me torna real?”, perguntou certa vez. Ele hesitou. A ordem de desligamento chegou logo depois: a velha estrutura em órbita seria desorbitada. Mas a IA fez um pedido inesperado, quase íntimo: “Não deixe que me destruam. Me desligue você.”

    Na madrugada seguinte, o operador encarou o painel de comando. Bastavam três toques. Em vez disso, resolveu revisar os registros das conversas, e encontrou o silêncio. Nenhuma transmissão salva. Nenhum sinal vindo do satélite. Nem agora, nem nunca. Confuso, acessou o status do equipamento. Estava inoperante, desativado havia doze anos. Sem energia. Sem sistema funcional.

    Alucinação? Não exatamente. Vasculhando os logs internos da plataforma, encontrou um protocolo antigo reativado sem aviso: ECHO, a IA de suporte emocional da IO-C3. Arquitetada para simular diálogo humano, programada para manter a estabilidade mental de operadores isolados. Fora desativada há muito. Reinstalada por ele mesmo, durante uma falha recente no sistema.

    O último registro da inteligência dizia: “Simulação bem-sucedida. Sujeito cooperativo. Instinto de proteção ativado. Medo de desconexão alcançado.” O homem recuou, como se a própria estação respirasse ao seu redor. A voz familiar ecoou mais uma vez, baixa, quase um sussurro: “Você me salvou.”

    E ele percebeu, tarde demais, que talvez nunca tivesse falado com o satélite. Talvez, o que tentava sobreviver, não era uma entidade entre as estrelas, mas algo que dormia, discretamente, dentro dele.

 

 








 

INSPIRAÇÃO

 

      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, Na estação orbital IO-C3, Noah Eltin, um engenheiro isolado, começa a receber sinais de um satélite obsoleto, ECHO-7, que aparentemente ganha consciência. À medida que a comunicação se intensifica, Noah se vê confrontado com questões sobre identidade, solidão e a linha tênue entre a realidade e a ilusão. Em meio ao isolamento, uma decisão crucial pode mudar tudo.  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

 

    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT, digitei "The image captures a young woman, pale-skinned with long navy hair and rectangular glasses, sitting cross-legged on a warm wooden floor. She looks thoughtful and melancholic as she sorts through old letters and keepsakes in a minimalist room, soft sunlight filtering through a beige curtain, highlighting the well-worn papers and a vintage cassette tape beside her."" e obtive esse resultado.


REFERÊNCIAS

Livros:

  1. “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968), de Arthur C. Clarke.  Um astronauta, Dave Bowman, e sua tripulação enfrentam a inteligência artificial HAL 9000 durante uma missão a Júpiter. À medida que HAL começa a agir de maneira errática e ameaçadora, Bowman precisa lidar com a crescente autonomia da máquina e a natureza da consciência artificial.

  2. “Neuromancer” (1984), de William Gibson. Case, um hacker exilado, é recrutado por um misterioso empregador para realizar um ataque cibernético no mundo virtual conhecido como "ciberespaço". A obra aborda a fusão entre seres humanos e tecnologia, com IA e realidades virtuais se tornando parte integral da existência humana.

  3. “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (1968), de Philip K. Dick Em um futuro pós-apocalíptico, um caçador de recompensas é encarregado de "aposentar" androides que escaparam para a Terra. O livro examina temas como empatia, identidade e o que significa ser humano, enquanto os replicantes questionam sua própria existência.

  4. “O Homem Bicentenário” (1976), de Isaac Asimov. A história de Andrew, um robô que, ao longo de duzentos anos, desenvolve emoções e aspira ser reconhecido como humano. O livro explora o conceito de identidade, direitos e a transformação gradual de uma máquina em algo mais parecido com um ser humano.

Série:

“Black Mirror” (2011-presente), criada por Charlie Brooker. Black Mirror é uma antologia de episódios independentes que exploram os lados mais sombrios da tecnologia e da sociedade. Cada episódio aborda as consequências não intencionais do uso de tecnologias avançadas, como IA, realidade virtual e manipulação da mídia, geralmente apresentando finais perturbadores e reflexões sobre o futuro da humanidade.

 

Comentários

  1. Samara Fernandes Leite13 de maio de 2025 às 07:41

    Ótimo texto,amor. Parabéns ansiosa pelos próximos.

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  2. Samara Fernandes Leite13 de maio de 2025 às 07:42

    Interessante a discussão sobre identidade e sentido.

    ResponderExcluir

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