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A CAIXA DA MÃE

''O ódio tem melhor memória do que o amor.'' Honoré de Balzac

 

    O velório foi rápido. Pouca gente. Nenhuma lágrima da minha parte, só um cansaço frio atrás dos olhos.     Quando o coveiro jogou a última pá de terra, eu ainda segurava a aliança dela no bolso. Não consegui usar. Nem guardar direito. A casa parecia maior sem ela. Não vazia  maior. Como se o silêncio tivesse espaço para crescer. Entrei sozinha, a chave ainda cheirando a metal novo. No corredor, os retratos estavam tortos. Deixei assim.

    Demorei três dias para começar a mexer nas coisas. Comecei pela cômoda, depois os livros, depois os armários da cozinha. Encontrei a caixa por acaso, embaixo da cama, empacotada com fita adesiva e um recado escrito à mão: “NÃO JOGAR FORA”. A letra dela, firme, dura. Igual à voz. Abri sentada no chão do quarto. Tinha um cheiro estranho — papel velho, sabonete e alguma coisa que talvez fosse tristeza.

    Cartas. Muitas. Todas sem envelope. Algumas rasgadas, outras amassadas como se tivessem sido jogadas longe e depois resgatadas. A primeira era destinada a mim. Datada de 2005. "Daiane¹, se um dia você achar isso, é porque já não estou mais aqui com o propósito de atrapalhar sua vida." Li até o fim. Depois outra. E mais uma. Algumas direcionadas a mim, outras sem destinatário. Algumas cheias de raiva, outras insinuando um pedido de desculpa sem realmente fazer um. Uma mencionava a vez em que me deixou trancada fora de casa porque cheguei tarde — ela tinha medo que eu me tornasse “igual ao seu pai”. Outra descrevia a primeira vez que ouviu minha risada e considerou desistir do emprego só com a intenção de ficar em casa.

    Encontrei também uma fita cassete. Peguei o toca-fitas do armário. Funcionou. A voz dela, mais jovem, mais viva, encheu o quarto: “Hoje é seu aniversário. Fiz aquele bolo de milho que você gostava, mas você não comeu. Disse que tava de dieta. Fiquei com raiva. Mas você tava tão bonita. Tão... adulta. E eu não sabia o que fazer com aquilo.” Parei a fita. Depois liguei de novo. A voz continuava, entre cortes, ruídos, frases soltas. Ela ria. Choro abafado. Um nome que não reconheci.

    Naquela noite, sonhei com ela me olhando do corredor, como fazia quando eu dormia tarde e deixava a luz acesa. Acordei com a garganta seca. Fui até a cozinha. O relógio piscava 3:12. Me sentei no chão. As cartas espalhadas na mesa. Pensei em queimar tudo. Guardar no fundo, de uma gaveta  ou mandar encadernar. Ela era uma mulher quebrada. Eu também. Só que dela herdei mais do que traços e manias.     Herdei o silêncio. A dureza. E agora, as palavras que nunca chegaram.

    Na manhã seguinte, peguei uma caixa nova. Separei as cartas que me disseram alguma coisa. As que doeram de um jeito certo. As que consegui ler até o fim sem sentir raiva. As outras, rasguei em pedaços pequenos, como ela fazia com os bilhetes do colégio quando ficava brava comigo. Coloquei o que restou na caixa. Escrevi em cima, com outra letra: "Lembrar sem repetir." Enterrei no fundo do armário. Nem escondi, nem deixei à vista. Algumas heranças a gente guarda. Outras, a gente molda. E algumas, a gente devolve ao silêncio.

 

INSPIRAÇÃO

 

      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, após a morte da mãe, Daiane retorna à casa da infância e se depara com lembranças inesperadas. Entre objetos antigos, ela encontra algo que a força a revisitar silenciosamente a relação conturbada que sempre evitou compreender. Em meio ao luto e à descoberta, precisa enfrentar escolhas sobre o que levar adiante.  Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

 

    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, CHAGPT, digitei "The image captures a young woman, pale-skinned with long navy hair and rectangular glasses, sitting cross-legged on a warm wooden floor. She looks thoughtful and melancholic as she sorts through old letters and keepsakes in a minimalist room, soft sunlight filtering through a beige curtain, highlighting the well-worn papers and a vintage cassette tape beside her."" e obtive esse resultado.


REFERÊNCIAS


1.    Na série BoJack Horseman, Diane Nguyen é uma escritora introspectiva e idealista que enfrenta crises existenciais, conflitos familiares, depressão e a pressão de ser "a voz da razão". Seus temas recorrentes incluem legado emocional, culpa, identidade e o medo de repetir os erros dos pais. Esses elementos estão refletidos no conto, onde Daiane lida com traumas herdados, comunicação interrompida e a difícil tarefa de decidir o que carregar e o que abandonar do passado.



 

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