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O IMPÉRIO QUE NUNCA CAIU

 “Uma coisa tão Simples, quanto o bater de asas de uma borboleta, pode causar um tufão do outro lado do mundo.”Efeito Borboleta


     Naquela manhã de junho de 1815, Jean já havia alterado o curso dos acontecimentos ao sabotar as mensagens que Wellington enviara a Blücher, garantindo que os prussianos jamais chegassem a tempo. Agora, assistia, oculto entre as fileiras francesas, ao desenrolar da batalha. As tropas de Napoleão, revitalizadas pela ausência dos reforços inimigos, lançavam um último ataque decisivo, rompendo as linhas britânicas.

    Quando o sol se pôs, o campo estava coberto de corpos, mas a bandeira tricolor ainda tremulava. Napoleão, coberto de lama e sangue, olhou ao longe, seu rosto exausto, mas cheio de triunfo. Ele havia vencido, mais uma vez. Jean sentiu uma onda de euforia, convencido de que o futuro seria melhor por causa de sua intervenção.

     Jean despertou num mundo diferente. Retornara ao seu presente – ao menos, assim pensava. Contudo, a Paris que se erguia diante dele não era a que conhecia. Torres imponentes dominavam o horizonte, não de aço e vidro, mas de pedra negra e ferro, símbolos de um poder que parecia eterno. Bandeiras francesas decoravam todas as ruas, e soldados marchavam em cada esquina. Ele sabia que Napoleão havia unificado a Europa sob seu comando, mas aquilo não era o império iluminado que Jean imaginara. Em vez de um renascimento de ideias, ciência e cultura, ele encontrava um regime de opressão, vigilância e medo.

     Ao caminhar pelas ruas, percebeu as faces tensas dos cidadãos. As pessoas evitavam contato visual, suas conversas sussurradas e seus passos rápidos. Nas praças, monumentos gigantescos do imperador e suas vitórias suprimiam qualquer traço de diversidade cultural que outrora definira as capitais europeias. As línguas haviam sido padronizadas, a diversidade reprimida. Em cada esquina, os olhos vigilantes do Estado acompanhavam os passos de Jean.

     Foi numa taverna, onde ele tentava misturar-se à multidão, que soube da verdadeira extensão de sua intervenção. Um velho, que parecia ter vivido décadas sob aquele regime, sussurrou para ele: "Napoleão vive. Seu filho governa, mas o verdadeiro poder está com ele, ainda nas sombras."

     Ficou incrédulo. Napoleão, em 1845, ainda vivo? O velho assentiu, com um sorriso amargo. "Ele se tornou imortal aos olhos do povo. Não envelhece, não se retira. O Império cresceu até onde os olhos não alcançam, mas não há liberdade. Quem questiona, desaparece. Não há progresso, apenas o eco eterno do seu governo."

     Sentiu um arrepio. Ele dera poder a Napoleão, mas não havia calculado o preço. Na obsessão de preservar a ordem, o Imperador havia esmagado toda dissidência. Seu sonho de uma Europa unificada se transformara num pesadelo autoritário.

     Tomado pela urgência de corrigir seu erro, Jean começou a planejar como poderia contatar Napoleão. Ele sabia que era impossível voltar no tempo novamente; a máquina que o enviara a 1815 fora destruída durante a missão. A única esperança agora era confrontar o próprio homem.

    Usando suas habilidades de infiltração, conseguiu ser convocado ao Palácio Imperial sob o pretexto de um historiador desejando entrevistar o imperador. Quando finalmente entrou nos aposentos privados de Napoleão, ficou chocado ao ver o que havia se tornado do homem que outrora admirava.

    Napoleão estava sentado, coberto por mantos de veludo, seu rosto marcado por rugas profundas e olhos que reluziam com a intensidade de alguém consumido por sua própria ambição. Mas algo mais o perturbava: ele parecia... inumano. O ar ao redor dele era denso, como se a própria atmosfera fosse controlada pela sua presença.

    Jean foi direto. "Eu sou o responsável por sua vitória em Waterloo," confessou, esperando que sua honestidade despertasse algo no homem. "Eu vim do futuro e alterei a história para garantir sua ascensão, acreditando que você traria paz e progresso."

    Napoleão não pareceu surpreso. Ele apenas sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. "Então foi você?" Sua voz era grave, cheia de desgosto. "Acha que eu não sabia? Acha que fui eu quem venceu aquela batalha? Não, jovem. O destino estava sempre comigo. Você apenas acelerou o inevitável."

    Estava atordoado. "Mas veja o que você fez! O mundo é uma prisão! Não há liberdade, não há cultura, não há progresso!"

    Napoleão ergueu-se lentamente, sua figura imponente, e caminhou até Jean. "Você acredita que a liberdade é o verdadeiro poder? Progresso? A humanidade não deseja isso. Deseja ordem, direção. E eu sou quem lhes dou isso."

    Deu um passo para trás, horrorizado. "Você destruiu a própria essência da humanidade."

    Napoleão sorriu novamente, dessa vez com uma profunda tristeza. "A história não se importa com a essência. Se você veio para desfazer o que fez, sinto informar: não pode. O mundo que você conhecia nunca mais existirá."

    Percebeu, tarde demais, que o que fizera não tinha volta. E, como num golpe de ironia final, Napoleão lhe disse: "Agora, você fará parte desta história, uma peça inalterável. E no futuro, não haverá um Jean Vallière para mudar o destino."

    Enquanto o imperador se afastava, Jean sentiu seu corpo endurecer, como se fosse uma estátua sendo lentamente esculpida. Ele estava preso naquele novo mundo, sem escapatória, sem redenção.

 

 


 

INSPIRAÇÃO

 

  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, um viajante do tempo intervém durante a Revolução Francesa, ajudando os revolucionários a expandirem sua influência para além da Europa. O resultado é um mundo onde as monarquias foram completamente extintas, e a democracia prevalece em todo o planeta. No entanto, a falta de estabilidade e as inúmeras guerras civis espalhadas por países que não estavam preparados para a mudança fazem o viajante questionar sua decisão.


    Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, BING, digitei "Realistic image of Napoleon Bonaparte in the 21st century as if he had never lost the Battle of Waterloo
" e
obtive esse resultado. 





Comentários

  1. Excelente ... Gostei deste seu novo estilo ... Textos bem redigidos e pontuais , parabéns meu filho ... Não pare ...vc escreve e eu leio !!

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