''Não somos responsáveis pelas emoções, mas sim pelo que fazemos com as emoções.''
O despertador tocou às seis da manhã, e o som cortante rasgou a pequena sala com a precisão de uma lâmina. Anna estendeu o braço trêmulo para silenciá-lo, hesitando por um breve segundo antes de puxar o cobertor sobre o rosto. Lá fora, a cidade começava a acordar; passos apressados ecoavam pelas calçadas, e o ruído de carros enchendo as ruas era abafado pelas cortinas pesadas e empoeiradas. Um novo dia — ou melhor, um dia igual a todos os outros.
Ela se levantou devagar, sentindo os músculos das pernas doloridos, como se tivessem sido substituídos por chumbo. Caminhou até o espelho e olhou para si mesma, os olhos cansados, o rosto pálido, vazio de expressão. Já fazia quanto tempo desde que vendera a primeira emoção? Ela mal conseguia se lembrar.
O conceito, quando surgiu pela primeira vez, parecia impossível. Vender emoções? Uma ideia absurda. Mas, à medida que os cientistas progrediam, os laboratórios se expandiam e as corporações viam potencial de lucro, o impensável tornava-se prática cotidiana. Alegrias, tristezas, medos, esperanças — tudo poderia ser destilado e transferido, como se fossem mercadorias num mercado em expansão. Para os ricos, era um luxo: podiam comprar felicidade instantânea, alívio para suas culpas, momentos de nostalgia a qualquer momento. Para os pobres, como Anna, era uma necessidade brutal.
Naquela manhã, enquanto vestia suas roupas surradas, Anna se lembrou de como começou. Primeiro, vendeu pequenos fragmentos: um riso de infância, uma tarde no parque com o pai, a sensação cálida da brisa no rosto em um dia ensolarado. Cada vez que saía da clínica, sentia-se mais leve, mais vazia, como se uma parte de si estivesse sendo removida sem anestesia. Mas a urgência de dinheiro falava mais alto. Com o tempo, a necessidade se tornou insaciável, e Anna vendeu mais — momentos de felicidade que ela pensou que não lhe fariam falta. Até perceber que vendia a própria essência.
Hoje, no entanto, era diferente. Ela sabia que não tinha mais o que vender, e a ideia lhe provocava uma espécie de angústia sufocante, como se estivesse encurralada em um corredor sem saída. Não havia nada de grandioso ou heroico em seu sofrimento; era banal, rotineiro, quase mecânico. A ausência de emoções tinha um peso físico — seu corpo estava cada vez mais lento, mais pesado, e a mente, antes ágil, agora funcionava como uma máquina enferrujada.
No caminho para a clínica, os prédios altos e cinzentos pareciam se inclinar sobre ela, como testemunhas silenciosas de sua decadência. Os transeuntes, todos apressados e indiferentes, desfilavam pelas ruas, e Anna se sentiu ainda mais invisível. O mundo seguia seu curso, indiferente ao preço que ela pagava para sobreviver. No fundo, talvez fosse sempre assim.
Ao chegar à clínica, um letreiro brilhante piscava: "Compre ou Venda Emoções. Restauramos o que te falta." Anna riu amargamente. Restauramos o que te falta. Como se fosse possível recuperar o que já estava perdido. Entrou no prédio e foi recebida pelo habitual cheiro de desinfetante misturado com algo metálico e frio. O atendente no balcão, com um sorriso plastificado e olhar inexpressivo, a reconheceu.
— Bom dia, senhora Anna. A senhora veio para... vender?
Ela hesitou por um momento. Sabia que, no fundo, não havia mais nada dentro dela que valesse algo. O pouco que restava de sua humanidade era como uma chama vacilante, à beira de se apagar completamente.
— Sim — respondeu, quase num sussurro.
O atendente digitou algo na tela e pediu que ela seguisse para a sala de extração. Anna caminhou até lá, sentindo os passos ecoarem pelas paredes nuas e brancas. Deitou-se na mesa e fechou os olhos, enquanto os técnicos preparavam os equipamentos ao seu redor. A máscara fria foi colocada sobre seu rosto, e o som de máquinas trabalhando preencheu o silêncio.
Desta vez, seria a última lembrança. A mais preciosa de todas.
Era uma tarde de verão, muitos anos atrás. Ela era jovem, corria pelos campos verdes, sentindo o vento bagunçar seus cabelos. Seu pai, ainda vivo, estava ao longe, sorrindo para ela. O riso de Anna enchia o ar, puro, livre de preocupações, como se o mundo fosse eterno e nada pudesse estragar aquela alegria simples e sincera. Era o momento em que ela se sentia mais viva.
A máquina sugou a lembrança como uma sanguessuga faminta, e Anna, de olhos fechados, sentiu a ausência imediata. Era como se algo vital tivesse sido arrancado de dentro dela. Quando se levantou da mesa, soube que, de alguma forma, nunca mais seria a mesma. Quem era ela agora, sem suas memórias?
O atendente a chamou para receber seu pagamento. Pegou o dinheiro, uma soma ridícula, e saiu da clínica com passos incertos. O mundo ao redor parecia o mesmo, mas dentro dela algo havia mudado irrevogavelmente. Caminhando pela rua, Anna se deu conta de que não conseguia mais lembrar da sensação do vento no rosto. As cores pareciam desbotadas, os sons distantes, como se estivessem separados por uma barreira invisível.
Ela parou em frente a uma vitrine que refletia sua figura frágil. O rosto no espelho era de uma estranha. Quem era aquela mulher? Anna não sabia. Não tinha mais uma história para contar, nem lembranças para reconfortá-la nas noites solitárias. O vazio dentro dela era absoluto.
Por um momento, ela ficou ali, encarando o reflexo. Pensou em voltar para a clínica, bater à porta e exigir suas memórias de volta. Pensou em gritar. Mas as palavras se perderam antes mesmo de serem formadas. Se ela não era mais quem foi, o que restava?
Ela se levantou devagar, sentindo os músculos das pernas doloridos, como se tivessem sido substituídos por chumbo. Caminhou até o espelho e olhou para si mesma, os olhos cansados, o rosto pálido, vazio de expressão. Já fazia quanto tempo desde que vendera a primeira emoção? Ela mal conseguia se lembrar.
O conceito, quando surgiu pela primeira vez, parecia impossível. Vender emoções? Uma ideia absurda. Mas, à medida que os cientistas progrediam, os laboratórios se expandiam e as corporações viam potencial de lucro, o impensável tornava-se prática cotidiana. Alegrias, tristezas, medos, esperanças — tudo poderia ser destilado e transferido, como se fossem mercadorias num mercado em expansão. Para os ricos, era um luxo: podiam comprar felicidade instantânea, alívio para suas culpas, momentos de nostalgia a qualquer momento. Para os pobres, como Anna, era uma necessidade brutal.
Naquela manhã, enquanto vestia suas roupas surradas, Anna se lembrou de como começou. Primeiro, vendeu pequenos fragmentos: um riso de infância, uma tarde no parque com o pai, a sensação cálida da brisa no rosto em um dia ensolarado. Cada vez que saía da clínica, sentia-se mais leve, mais vazia, como se uma parte de si estivesse sendo removida sem anestesia. Mas a urgência de dinheiro falava mais alto. Com o tempo, a necessidade se tornou insaciável, e Anna vendeu mais — momentos de felicidade que ela pensou que não lhe fariam falta. Até perceber que vendia a própria essência.
Hoje, no entanto, era diferente. Ela sabia que não tinha mais o que vender, e a ideia lhe provocava uma espécie de angústia sufocante, como se estivesse encurralada em um corredor sem saída. Não havia nada de grandioso ou heroico em seu sofrimento; era banal, rotineiro, quase mecânico. A ausência de emoções tinha um peso físico — seu corpo estava cada vez mais lento, mais pesado, e a mente, antes ágil, agora funcionava como uma máquina enferrujada.
No caminho para a clínica, os prédios altos e cinzentos pareciam se inclinar sobre ela, como testemunhas silenciosas de sua decadência. Os transeuntes, todos apressados e indiferentes, desfilavam pelas ruas, e Anna se sentiu ainda mais invisível. O mundo seguia seu curso, indiferente ao preço que ela pagava para sobreviver. No fundo, talvez fosse sempre assim.
Ao chegar à clínica, um letreiro brilhante piscava: "Compre ou Venda Emoções. Restauramos o que te falta." Anna riu amargamente. Restauramos o que te falta. Como se fosse possível recuperar o que já estava perdido. Entrou no prédio e foi recebida pelo habitual cheiro de desinfetante misturado com algo metálico e frio. O atendente no balcão, com um sorriso plastificado e olhar inexpressivo, a reconheceu.
— Bom dia, senhora Anna. A senhora veio para... vender?
Ela hesitou por um momento. Sabia que, no fundo, não havia mais nada dentro dela que valesse algo. O pouco que restava de sua humanidade era como uma chama vacilante, à beira de se apagar completamente.
— Sim — respondeu, quase num sussurro.
O atendente digitou algo na tela e pediu que ela seguisse para a sala de extração. Anna caminhou até lá, sentindo os passos ecoarem pelas paredes nuas e brancas. Deitou-se na mesa e fechou os olhos, enquanto os técnicos preparavam os equipamentos ao seu redor. A máscara fria foi colocada sobre seu rosto, e o som de máquinas trabalhando preencheu o silêncio.
Desta vez, seria a última lembrança. A mais preciosa de todas.
Era uma tarde de verão, muitos anos atrás. Ela era jovem, corria pelos campos verdes, sentindo o vento bagunçar seus cabelos. Seu pai, ainda vivo, estava ao longe, sorrindo para ela. O riso de Anna enchia o ar, puro, livre de preocupações, como se o mundo fosse eterno e nada pudesse estragar aquela alegria simples e sincera. Era o momento em que ela se sentia mais viva.
A máquina sugou a lembrança como uma sanguessuga faminta, e Anna, de olhos fechados, sentiu a ausência imediata. Era como se algo vital tivesse sido arrancado de dentro dela. Quando se levantou da mesa, soube que, de alguma forma, nunca mais seria a mesma. Quem era ela agora, sem suas memórias?
O atendente a chamou para receber seu pagamento. Pegou o dinheiro, uma soma ridícula, e saiu da clínica com passos incertos. O mundo ao redor parecia o mesmo, mas dentro dela algo havia mudado irrevogavelmente. Caminhando pela rua, Anna se deu conta de que não conseguia mais lembrar da sensação do vento no rosto. As cores pareciam desbotadas, os sons distantes, como se estivessem separados por uma barreira invisível.
Ela parou em frente a uma vitrine que refletia sua figura frágil. O rosto no espelho era de uma estranha. Quem era aquela mulher? Anna não sabia. Não tinha mais uma história para contar, nem lembranças para reconfortá-la nas noites solitárias. O vazio dentro dela era absoluto.
Por um momento, ela ficou ali, encarando o reflexo. Pensou em voltar para a clínica, bater à porta e exigir suas memórias de volta. Pensou em gritar. Mas as palavras se perderam antes mesmo de serem formadas. Se ela não era mais quem foi, o que restava?
Os olhos da estranha no vidro a encaravam de volta, quase esperando uma decisão. Anna deu um passo em direção à rua, o corpo movendo-se mecanicamente, como se estivesse à espera de algo novo — ou de nada.
INSPIRAÇÃO
A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, em um mundo onde é possível comprar e vender emoções, uma mulher pobre decide vender suas lembranças mais felizes para sobreviver, mas começa a perder sua essência e conexão com o passado. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
Ps:
A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, BING AI,
digitei "Mercado de emoções: Em um mundo onde é possível comprar e vender emoções, uma mulher pobre decide vender suas lembranças mais felizes para sobreviver, mas começa a perder sua essência e conexão com o passado." e obtive esse resultado.

Ótimo texto, principalmente ao abordar o subjetivo sendo destruído pela não construção, acredito que se tornaria fútil.
ResponderExcluirUma narrativa que evoca diferentes emoções e muitas reflexões.
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