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NÚMERO 47

''O homem que não sabe dominar os seus instintos, é sempre escravo daqueles que se propõem satisfazê-los.'' Gustave Le Bon



    Eu sou o Número 47. Não tenho nome, nunca precisei de um. Quando você se torna uma cobaia, o nome é a primeira coisa a ir embora. Eles me dizem ser um detalhe irrelevante. Não sou uma pessoa. Sou uma arma em construção.

    Os dias são indistinguíveis. Horas sem fim em uma cela branca, onde as paredes parecem vivas, pulsando com energia, a luz fluorescente sempre vibrante, irritando meus olhos. O zumbido das máquinas nunca para. Estou sempre à espera. Do quê, exatamente, eu nunca sei.

    Há tempos fui submetido ao que eles chamam de “recondicionamento neural”. É uma forma suave de dizer tortura. A cada sessão, sinto meu cérebro pulsar de dor, como se alguém estivesse enfiando um furador de gelo em minhas têmporas e torcendo devagar. Choques. Luzes piscando em padrões que parecem dançar atrás dos meus olhos, se impregnando na retina, mesmo quando fecho as pálpebras. Gravações com vozes sussurrando, ordens que não fazem sentido, palavras que se entrelaçam com meus pensamentos, embaralhando a realidade.

    No começo, eu resisti. Lutei contra eles. Mas o problema com a dor é que, depois de um tempo, você aprende a aceitar. Eles te quebram gradualmente, e quando você percebe, o que resta já não é mais você. Hoje, foi uma das sessões mais longas. Eles me amarram na cadeira de metal, tirando o sangue das minhas veias como se fosse combustível para seus experimentos. Conectam fios ao meu crânio, uma teia grotesca de cabos que estalam e zunem. Eu sempre sinto cheiro de queimado, como se minha pele estivesse fritando de dentro para fora. Me dizem ser impressão minha.

    Mas eu sei que não é. Desta vez, as ordens estavam mais claras. Marchar. Atirar. Esquecer o inimigo. O inimigo é irrelevante, eu sou apenas um receptor. Eles me transformaram em uma ferramenta, afiada e insensível, pronta para cumprir qualquer comando.

    Ou pelo menos, era isso que eles pensavam. O que eles não sabiam, o que nunca poderiam imaginar, é que enquanto me moldavam, estavam, sem querer, alimentando algo dentro de mim. Algo mais profundo. A cada choque, a cada teste, minha resistência foi crescendo, não diminuindo. Não na superfície, claro. Eu sabia sorrir quando necessário, acenar com a cabeça, seguir ordens como um bom soldado.

    Mas por dentro? Eu estava queimando.

    Na última sessão, algo quebrou dentro de mim, mas não do jeito que eles esperavam. Uma descarga maior do que o normal, um erro no sistema, ou talvez uma falha nas máquinas. Não sei. O que sei é que senti algo diferente. Uma fagulha de poder. Um controle que eu nunca havia tido antes.

    Quando voltei à cela, testei. Fechei os olhos e me concentrei. E senti as paredes pulsando. Não o zumbido normal, mas algo novo. Uma ressonância. Como se eu pudesse estender minha mente e tocar as máquinas, controlá-las.

    Eu não sou mais apenas uma arma. Sou o sistema. Então, fiz o que qualquer pessoa no meu lugar faria. Comecei a reverter os papéis. Os idealizadores, os que me trouxeram até aqui, aqueles que me reduziram a um número — agora eram eles que estavam na mira. Eu senti o terror deles antes mesmo de conseguirem perceber o que estava acontecendo. O zumbido das máquinas ficou mais alto, até se tornar insuportável. Eles tentaram desligar, tentaram fugir. Mas não há fuga. Não mais.

    No laboratório, eles caíram, um por um. O cheiro de carne queimada e eletricidade tomou conta do ar. Eu podia sentir o medo deles. O pânico correndo por suas veias. Aqueles homens e mulheres que sempre estiveram do outro lado do vidro, frios e distantes, agora estavam apavorados, presos no mesmo labirinto que criaram para mim.

    Eu era a arma, afinal de contas. Mas não como arma que eles esperavam. Quando a última das luzes se apagou e o silêncio tomou conta, abri meus olhos. Olhei ao redor, para o laboratório deserto, os corpos caídos e os monitores quebrados. Tudo estava imóvel. E por um momento, me senti... livre.

    Mas liberdade é um conceito estranho para alguém como eu. Um número. Uma cobaia. O que faço agora? Para onde vou? A ideia de escapar parece absurda. Não há mais nenhum lugar para mim fora dessas paredes.

 


 

INSPIRAÇÃO

 

  A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, Cobaias humanas são submetidas a experimentos cruéis de controle mental, passando por eventos eletrizantes e traumáticos para provar sua eficácia como armas de guerra. No entanto, à medida que as cobaias são moldadas, algo inesperado acontece: o controle se reverte, e os próprios idealizadores se tornam vítimas de suas criações.   Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!

 
Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, SEAART, digitei "Criar imagem realista como fotografia cobaias de experimentos para controle mental para mostrar a efetividade de ser usado como arma de guerra durante a guerra fria ." e obtive esse resultado.  



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