“O peso de seu abraço, o som da sua voz, aquela sensação muito especial de estar repartindo.’’ David Gerrold
Gabriel sempre fora fascinado pelo mar. Seus olhos cinzentos brilhavam de expectativa enquanto ajustava a máscara de mergulho, o cabelo preto e liso se movendo levemente ao sabor da brisa marítima. Ao seu lado, Samara, com seus cabelos cacheados e olhos cheios de vida, sentia uma excitação semelhante. As histórias sobre a caverna subaquática que eles estavam prestes a explorar os intrigavam há meses. Contos antigos diziam que aqueles que se aventuravam nas profundezas da caverna podiam ouvir os sussurros dos amantes perdidos no mar, almas que nunca encontraram descanso.
O casal mergulhou na água cristalina, seus movimentos sincronizados como se fossem um só. A luz do sol atravessava a superfície, criando um jogo de luz e sombras que parecia dançar em torno deles. Enquanto desciam, a temperatura da água caía, e o mundo à sua volta se tornava um azul profundo e impenetrável. Guiados por uma corrente suave, eles encontraram a entrada da caverna, um arco de rocha coberto por algas que se mexiam como dedos esqueléticos.
Os dois mergulhadores entraram na caverna, onde o ambiente mudou drasticamente. A luz natural desapareceu quase por completo, e eles foram forçados a ligar suas lanternas. O feixe de luz das lanternas cortava a escuridão, revelando paredes cobertas por antigas formações rochosas e corais incrivelmente preservados. O silêncio ali dentro era opressor, quebrado apenas pelo som das bolhas de ar que escapavam de seus reguladores.
Conforme avançavam, um frio sobrenatural os envolveu. Samara sentiu um arrepio percorrer sua espinha, como se mãos invisíveis tivessem tocado sua pele. Ela se virou, quase certa de ter visto um movimento à sua esquerda. Mas não havia nada além de água e rocha. O mergulhador ao seu lado apertou sua mão levemente, um gesto de conforto que ela retribuiu.
De repente, o caminho à frente se abriu para uma vasta câmara subaquática. Ali, em meio à escuridão, formas pálidas começaram a se materializar. Eles eram etéreos, translúcidos, como figuras moldadas em névoa. As almas dos amantes perdidos. Seus olhos vazios pareciam observar cada movimento do casal, suas bocas murmurando palavras inaudíveis, mas repletas de anseios desesperados.
As figuras começaram a se aproximar, seus movimentos lentos, quase hipnóticos. Samara sentiu uma atração inexplicável, como se algo nela quisesse alcançar aquelas almas. Sentiu-se puxada em direção a elas, como se um fio invisível ligasse seu coração ao deles. Seu companheiro de mergulho percebeu sua hesitação, o aperto em sua mão tornou-se mais firme, um lembrete silencioso de que eles estavam juntos naquela jornada.
Mas a atração era poderosa demais. Os fantasmas começaram a se entrelaçar ao redor do casal, tentando arrastá-los para o abismo, para o vazio que nunca os libertara. Um terror gelado tomou conta deles, um medo ancestral que murmurava que aquele seria seu fim. No entanto, não era apenas o medo que crescia, mas também o amor que compartilhavam. Era como se cada ameaça, cada toque espectral, reforçasse a conexão que tinham um com o outro.
Naquele momento de pavor absoluto, o casal compreendeu a verdade por trás das lendas. Os espíritos não buscavam apenas companhia, mas ansiavam por sentir o calor do amor vivo novamente, algo que eles haviam perdido e nunca mais poderiam experimentar. As almas perdidas estavam presas em um ciclo interminável de saudade e desespero, e a única maneira de escapar era arrastar outras almas para a mesma maldição.
Foi o amor que os salvou. Não um amor passivo, mas um amor que se recusava a ser corrompido. Eles se agarraram um ao outro, ignorando os sussurros sedutores e os toques gelados. O vínculo entre eles, forjado na confiança e na cumplicidade, foi mais forte do que qualquer força que as profundezas poderiam invocar. Juntos, começaram a nadar de volta, seus corpos movidos por uma determinação inabalável.
As almas, percebendo que não poderiam romper aquele laço, começaram a se dissipar, suas formas esvaindo-se como névoa ao amanhecer. A caverna, antes opressiva, parecia liberar seu aperto gélido. A saída estava próxima, e a luz do sol, filtrando-se pelo oceano, parecia mais brilhante e convidativa do que nunca.
Quando finalmente emergiram à superfície, ofegantes e exaustos, souberam que tinham vencido. Não apenas as forças sobrenaturais das profundezas, mas também as dúvidas e os medos que poderiam ter enfraquecido seu amor. Eles se olharam, e sem palavras, compreenderam que sobreviveram não apenas por sua habilidade, mas porque, no fim, tinham algo que os espíritos jamais teriam novamente um ao outro.
INSPIRAÇÃO
Que lindo 😍
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