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ÚLTIMA MEMÓRIA DA TERRA

 ''É a nossa resistência às circunstâncias que causa nosso sofrimento" Buda



    No vasto silêncio do espaço, onde as estrelas pareciam sussurrar segredos ancestrais, a nave Esperança Perdida deslizava por entre nebulosas e poeiras cósmicas, carregando consigo uma missão que poucos compreendiam de fato. Seus tripulantes, uma pequena equipe de exploradores, estavam em busca de um artefato dos tempos antigos, uma coisa tão pequena que poderia caber na palma da mão, mas que continha o peso de um planeta inteiro.

    A Terra. A palavra ainda carregava uma mística, uma nostalgia que queimava o peito de quem ousava pronunciá-la. Era um fantasma que se escondia nos recônditos da memória coletiva, uma melodia que ninguém mais sabia como cantar, mas que todos desejavam desesperadamente recordar. Há muito, os humanos foram expulsos de seu jardim primordial, e agora, saltando de estrela em estrela, restava-lhes apenas a recordação tênue de um lar que jamais voltariam a ver.

    Mas Gaia-1... ah, Gaia-1 era a chave. A pequena sonda, lançada antes do fim, carregava em seu coração metálico a essência de tudo o que a Terra fora. Cada folha que caíra, cada rio que serpenteava, cada riso e cada lágrima, tudo estava lá, guardado em seus circuitos como um tesouro incalculável. E então, um dia, desaparecera, perdida em algum canto esquecido do universo, deixando a humanidade à deriva em sua saudade.

    Os tripulantes da Esperança Perdida tinham sido escolhidos a dedo: Arkos, o capitão endurecido pelas cicatrizes de mil batalhas; Elara, a cientista cujo cérebro era um emaranhado de fórmulas e teorias; Juno, a engenheira capaz de consertar qualquer máquina, desde que tivesse um copo de café ao lado; e finalmente Lira, a poetisa que, de todos, parecia ser a única que realmente entendia o que significava perder a Terra.

  Por semanas, eles viajaram pelo vazio, seguindo a pista daquela transmissão fraca e distorcida. A voz metálica, quase irreconhecível, parecia implorar por ajuda, mas havia algo de errado ali, uma angústia oculta entre as palavras que ninguém sabia como nomear. No entanto, o dever os impelia adiante, mais e mais profundamente no espaço desconhecido, até que, finalmente, a encontraram.

  Gaia-1 flutuava sozinha no meio do nada, uma pequena esfera de metal polida que refletia a luz distante das estrelas. Mas ao se aproximarem, a tripulação sentiu algo diferente. A sonda parecia estar... viva? Lira foi a primeira a perceber, seus instintos de poetisa captando uma tristeza invisível no ambiente. Arkos, sempre o prático, ignorou a sensação e ordenou que a prendessem na baia de carga.

  Foi quando a voz ecoou pelos alto-falantes da nave, uma voz que não deveria existir.

  — Por que vocês vieram? — A voz era calma, quase triste. Não era a fria monotonia de uma IA, mas algo que lembrava vagamente o som do vento passando por campos de trigo, ou a voz de um ancião contando histórias ao redor de uma fogueira.

A tripulação parou, atônita. Nenhum deles ousou responder de imediato, mas então Lira, sempre sensível às nuances, sussurrou:

— Viemos para trazer você de volta.

— De volta? — A voz parecia considerar. — Voltar para quê?

  Elara, sempre a lógica, respondeu: — Para que possamos lembrar. Você carrega a Terra dentro de você. Precisamos das memórias.

    — Memórias...— repetiu a voz, quase como se saboreasse a palavra. — Mas as memórias são frágeis. Elas mudam.   São moldadas por quem as carrega.   Vocês não são mais os mesmos que me enviaram. O que farão com o que eu tenho?

    Arkos, impaciente, tentou assumir o controle: — Nossa missão é clara. Vamos recuperar suas memórias e compartilhá-las com a humanidade.

    Houve um silêncio prolongado, como se a sonda estivesse ponderando uma decisão monumental. Então, ela falou novamente, mas desta vez havia um tom de angústia, como se Gaia-1 estivesse à beira das lágrimas, se é que uma máquina pudesse chorar.

    — Se eu voltar... as memórias serão distorcidas. Serão usadas para justificar guerras, para alimentar sonhos de grandeza e poder. A Terra não era isso. A Terra era vida, simplicidade, beleza. Eu a carrego comigo, intacta. E assim deve permanecer.

    Lira, com os olhos brilhando de compreensão, sussurrou: — Você tem medo.

    — Sim... — a sonda respondeu suavemente. — Medo de que a Terra morra de verdade, não apenas no espaço, mas em seus corações. Se eu voltar, ela se tornará um mito, uma arma, algo que vocês não podem mais alcançar. Mas aqui, sozinha no silêncio do cosmos, ela ainda respira.

       Arkos tentou insistir, mas Lira ergueu a mão, silenciando-o. Ela se aproximou da tela onde as leituras da sonda piscavam suavemente, como uma chama moribunda.

  — Talvez... — disse Lira, com a voz trêmula — talvez seja melhor assim. Que a Terra permaneça como era, intocada, pura. Nós, que a perdemos, não temos o direito de corromper suas memórias.

    Gaia-1 permaneceu silenciosa por um longo tempo. Então, finalmente, ela disse:

    — Obrigado. — E a transmissão se apagou.

A Esperança Perdida ficou em órbita da pequena sonda por algumas horas, enquanto a tripulação ponderava sobre o que havia acontecido. Então, Arkos deu a ordem, e a nave silenciosamente se afastou, deixando Gaia-1 flutuando sozinha, guardiã das últimas memórias de um mundo que nunca mais voltaria.

  Enquanto eles partiam, Lira, com lágrimas nos olhos, recitou para si mesma as últimas palavras que ecoaram em sua mente:

  "Deixe a Terra descansar. Deixe-a viver nas estrelas."




INSPIRAÇÃO

      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. É uma ideia nova, fiz um texto curto relatando sobre uma sonda que apresenta a última memória da Terra, todavia, resiste em retornar temendo ser apagada por completo por ''cuidado do ser humano com o seu próprio planeta''.   Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
 Ps: A imagem do conto foi criado por intermédio de uma  IA, BING AI, digitei "A small probe containing the last digitized memory of Earth is lost in a forgotten corner of space. A group of explorers is sent to retrieve it, but they discover that the probe has developed its own consciousness and refuses to return, fearing that the memories will be manipulated by humans'' e obtive esse resultado. 
 

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