''A ilusão é uma fé desmedida.''
Nas tardes cinzentas de julho, ela costumava sentar na frente do
computador, a tela piscando a última lição. Agora, sem o toque dos dedos
nas teclas e o som dos cliques das aulas, o vazio ecoava no quarto.
Cada notificação de "Término de curso" parecia um lembrete cruel: o fim
da rotina que, de algum modo, também era o fim de uma parte dela. No
fundo, a melancolia escondia o alívio, e o espaço em branco na tela era
um convite ao desconhecido.
Ela moveu as peças do banco imobiliário com mãos trêmulas, o tabuleiro um palco para suas visões. As figuras que a cercavam, sussurrando estratégias e rindo, eram apenas sombras projetadas pela sua mente, mas no silêncio do quarto, era difícil dizer quem jogava contra quem.
As manchas de tinta no teste de
Rorschach dançavam como sombras de um mistério não resolvido. O
psiquiatra examinava-as com atenção, mas seus olhos traíam um cansaço
peculiar. Seus próprios olhos, cansados e turvos, distorciam os padrões,
criando uma interpretação que não estava lá. Cada resposta do paciente
revelava mais sobre a visão do médico do que sobre o próprio teste, e a
linha tênue entre o diagnosticar e o ser diagnosticado tornava-se cada
vez mais frágil.
João finalmente conseguiu comprar um apartamento em São Paulo. "É pequeno, mas é meu", disse, olhando para a caixa de fósforos que chamava de lar. Pelo menos, o IPTU é proporcional ao espaço.
Maria comemorou sua nova posição de home office. "Agora, posso trabalhar de pijama e por um salário menor!", exclamou, enquanto o chefe exigia mais uma hora extra não remunerada pelo WhatsApp.
Carlos jurava que a vacina fazia nascer antenas. Após a terceira dose, ainda não pegava Wi-Fi, mas pelo menos tinha um sinal de esperança. "Se não vira mutante, pelo menos tô imunizado", riu.
Em Brasília, decidiram que o melhor plano para a Amazônia era transformá-la em estacionamento. "Mais prático que salvar árvores", disseram, enquanto a fumaça das queimadas chegava à capital.
No futuro, as crianças aprenderão tudo por tablets, disseram. Ana, no entanto, usava o tablet para maratonar séries. "Educação? Só se tiver temporada nova", riu, enquanto ignorava as aulas.
O ministro anunciou que a corrupção estava sob controle. "Agora só aceitamos Pix", brincou. Pelo menos, as propinas estavam modernizadas, adequadas ao século XXI.
O pastor subiu ao púlpito e declarou com fervor: "Depressão é falta de fé!". No final do culto, foi encontrado no confessionário, cabisbaixo e murmurando: "Por que essa escuridão não passa?"
INSPIRAÇÃO

Ótimos contos, amor. PArabéns , ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirAdorei 👏
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