''Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data.'' Luis Fernando Verissimo
O ginásio era um caos, o som das risadas e das músicas juninas se misturando ao eco das vozes adolescentes. Eu tentava, com uma paciência que julgava infinita, organizar os alunos para o ensaio. Era como pastorear gatos. Na terceira vez que ela passou por ali, aquela adolescente que não era da minha turma, desdenhando do esforço alheio, já segurando uma garrafa de água sem tampa, meus nervos começaram a dar sinais de desgaste. No fundo, sabia que não devia me irritar, mas era difícil ignorar a provocação repetida. Quando ela passou novamente joguei água, molhando seu braço direito, quase rindo de satisfação, algo em mim se rompeu.
A semana seguinte passou como um borrão, cada dia mais pesado que o anterior. Na sala dos professores, desabei no sofá, tentando encontrar um pouco de paz navegando na internet. Foi então que o mundo desabou ao meu redor: "Professor agride aluna autista durante ensaio para a festa junina". A manchete do Metrópoles me atingiu como um soco. Cliquei na notícia, o coração acelerado, sentindo o sangue fugir do rosto.
"A família da aluna afirma que ela não deseja retornar para a escola, abalada psicologicamente. Um boletim de ocorrência foi registrado." A imagem dela, sentada, amparada pelas pernas, transmitia uma tristeza profunda. Não consegui ler mais nada. O pânico começou a tomar conta. Tentei respirar fundo, mas só conseguia pensar no que isso significava para mim. Minha carreira, construída com tanto esforço, ameaçada por algo tão efêmero.
As aulas seguintes foram um tormento. Os olhares dos colegas, dos alunos, pesavam. Cada vez que tentava me concentrar, a mente vagava para aquele dia, para a manchete. Tudo parecia um grande equívoco, uma piada cruel do destino. Como podia algo tão pequeno ter se tornado um desastre tão grande?
Essa situação toda me lembrou de um episódio no início da minha carreira, quando fui separar uma briga entre alunos do sexto ano. Tentei ouvir ambos os lados, mas um dos meninos, a cabeça ainda doendo das pancadas com a garrafa de água, pediu para que eu não punisse seu colega. “Ele é especial,” disse, como se isso justificasse tudo. Esse "passe livre" que a sociedade parece dar a alguns é uma espada de dois gumes. Proteger sim, mas ao custo de ignorar comportamentos nocivos?
O sino da do retorno após o intervalo tocou, mas a tensão não passou. Cada minuto parecia uma eternidade. E então, veio o chamado da diretora. Caminhei pelos corredores, sentindo o peso do julgamento pendendo sobre mim. Cada passo mais incerto, como se o chão pudesse desabar a qualquer momento. Entrei na sala, a porta se fechando suavemente atrás de mim.
INSPIRAÇÃO
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