''Em todas as lágrimas há uma esperança.'' Simone de Beauvoir
Em uma noite chuvosa de junho, como raramente se via na minha pacata cidade do Rio Grande do Sul, o céu desabou com uma fúria incomum. O rugido incessante das águas lá fora rivalizava com o tumulto que se formava dentro da minha mente. Nossa casa, uma simples construção de madeira, mal conseguia suportar a pressão da tempestade que rugia. Eu, um rapaz de quatorze anos, vi meu mundo ser engolido pela água.
Quando acordei, um silêncio ensurdecedor reinava. O barulho constante da chuva tinha cessado, substituído pelo som opressivo de um rio furioso que parecia ter engolido tudo ao seu redor. Minha primeira reação foi procurar meus pais. Gritei por eles, mas a resposta foi apenas o eco de minhas próprias palavras. A água suja chegava aos meus joelhos, e o pavor tomou conta do meu coração juvenil.
Meu primeiro impulso foi correr para o quarto deles, mas a força da correnteza me impediu. Lembrei-me então de Max, nosso fiel cachorro. O latido distante dele foi a única resposta ao meu desespero. Segui o som, tropeçando em móveis submersos e destroços, até encontrá-lo preso no canto da sala de estar, encharcado e tremendo. Peguei-o nos braços, sentindo o calor reconfortante de sua presença.
Sem ter mais o que fazer, fui para fora, para o mundo agora irreconhecível pela destruição. A água turva e gelada subia rapidamente. Cada passo era uma luta, mas eu sabia que ficar em casa não era uma opção. Meu destino, eu decidi, seria a casa da vovó, a apenas algumas ruas de distância.
A jornada foi árdua. O que antes era um caminho familiar transformara-se num campo de batalha contra os elementos. Árvores caídas, carros submersos e destroços de casas faziam parte da paisagem apocalíptica. Meu corpo, pequeno e magro, lutava contra a correnteza, cada passo parecia uma eternidade.
Enquanto avançava, vi vizinhos em situações igualmente desesperadoras. Um senhor de idade, seu rosto marcado pelo tempo e agora pelo desespero, tentava salvar o pouco que restava de sua casa. Uma mãe, com uma criança nos braços, olhava fixamente para o que outrora fora sua cozinha. Era um cenário de tristeza e perda, um retrato fiel da tragédia que nos havia assolado.
Finalmente, ao chegar na casa da vovó, a visão foi um golpe doloroso: sua casa também estava inundada. Sem alternativas, continuei minha busca, agora com uma energia renovada pela esperança de encontrar ajuda. Foi então que os vi: os bombeiros, nossos anjos de vermelho e amarelo, resgatando pessoas dos escombros.
Fui encontrado, exausto, com o companheiro peludo ainda nos braços, pela equipe de resgate. Eles me acolheram, envolveram-me em um cobertor quente e me tranquilizaram. Apesar de minha resistência, fui levado a um abrigo improvisado numa igreja próxima.
Chegar ao abrigo foi como emergir de um pesadelo. Lá, o cenário era de caos organizado, pessoas em busca de seus entes queridos, voluntários distribuindo mantimentos e oferecendo palavras de consolo. E foi nesse ambiente que, para minha alegria e alívio, vi meus pais. Encharcados, exaustos, mas vivos. Corri até eles, o abraço que selou nosso reencontro foi uma mistura de lágrimas e risos, uma descarga de emoções reprimidas.
Outros, como nós, também reencontravam suas famílias. Cada história de resgate era um sopro de esperança no meio da devastação. Lembranças tristes foram compensadas pela solidariedade e a união que surgia entre os sobreviventes.
Nossa casa se fora, nossas posses desaparecidas, mas ali, naquele momento, com minha família ao meu lado, senti uma força renovada. A tempestade havia levado muito, mas nos deixou algo inestimável: a certeza de que, enquanto estivermos juntos, podemos enfrentar qualquer adversidade.
INSPIRAÇÃO

Ótimo texto, bastante reflexivo.Ansiosa pelos próximos.
ResponderExcluirTexto repleto de sensibilidade e com uma reflexão importante, apesar das adversidades, ainda resta esperança
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