''Sempre tive a impressão de que a música fosse apenas o extravasamento de um grande silêncio.''Marguerite Yourcenar
Sob a suave luz que se filtrava pelas cortinas entreabertas, ele sentia
as notas escorregarem do violino como fios de saudade. Cada acorde era
uma despedida, uma dança final com um dom que sabia estar perdendo. Sua
audição, outrora aguçada, agora o traía gradualmente, dissipando-se como
o eco distante de uma canção que se desvanecia.
Os
dedos, ágeis e íntimos na dança das cordas, deslizavam sobre o violino.
Contudo, seus olhos, agora opacos, buscavam desesperadamente algo
perdido nas sombras. Uma sinfonia de lembranças ecoava em sua mente, uma
cacofonia de momentos que a surdez ameaçava roubar.
O
dilema o consumia, a dualidade cruel entre o amor pela música e a
realidade áspera da surdez iminente. Cada acorde ressoava como uma
lágrima silenciosa, uma despedida que ele não desejava encarar. O
violino não era apenas uma extensão de si mesmo, mas a essência de sua
alma melancólica.
Enquanto as notas se
desdobravam na penumbra do estúdio, ele buscava freneticamente
significado na melodia silenciosa que se insinuava. Cada silêncio era um
grito abafado, uma conversa íntima interrompida pelo destino
implacável.
A música, outrora fonte de euforia,
tornara-se campo de batalha entre sua paixão insaciável e a cruel
inevitabilidade da perda. Seu fluxo de consciência era um rio
tumultuado, carregando reflexões desesperadas sobre as nuances da vida e
a beleza efêmera que se desvanecia como promessa não cumprida.
O ambiente transformava-se em santuário de som, agora mergulhado em quietude
que ecoava mais alto que qualquer sinfonia anterior. Cada pausa entre as
notas era um suspiro, ecoando o vazio que tomava conta do mundo
musical.
Durante a melodia silenciosa se
desdobrava, ele perdia-se em sua própria mente, buscando
desesperadamente redenção no silêncio iminente. Seus dedos, mesmo sem
ouvir seu próprio lamento, continuavam a tecer a trama melancólica, uma
despedida que ressoaria além da última nota, deixando o destino incerto,
como uma canção interrompida no último acorde.
INSPIRAÇÃO

Adorei a ideia, eu senti a aflição,sendo musicista e tornando -me como Beethoven.
ResponderExcluirExcelente ... Cercado de detalhes que nos fazem visualizar cada cena !!
ResponderExcluirQue texto lindo e visual !
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