"Não existem terras estrangeiras. Quem viaja é o único estrangeiro." - T. S. Eliot
Vejo um velho na minha frente, deixe-me ver... ah, Senhor Geraldo. Como talvez você tenha assistido na televisão ou lido no jornal, nossa empresa está em ruínas, fecharemos as portas para sempre na sexta-feira. Assim afirmava o gerente responsável pelo RH. É engraçado ressaltar que, geralmente, esse cargo não é ocupado por alguém com grandes habilidades de comunicação, seguindo os princípios éticos.
Naquela sala retangular apertada, com apenas um ventilador velho e sujo, um jovem que, em relação à idade, poderia ser considerado neto do trabalhador, o idoso sentiu uma pontada no peito quando percebeu que não teria mais um meio de subsistência. As pernas e as mãos tremiam. O gerente entregou-lhe um copo de água e, ao final do encontro, lamentou que não pudesse ajudá-lo mais.
No dia seguinte, acordou muito cedo. Ao tentar ligar a torneira do banheiro, não saiu água, apenas um fino papel. Ao verificar com mais detalhes, notou serem inúmeras contas em tamanho reduzido. Sentiu fome, mas na geladeira não encontrou nada. Nos armários, havia apenas inúmeros papéis, e a cada abertura de porta, o volume dobrava. Em questão de segundos, o idoso se sentiu perdido em meio a tantas contas.
Nesse momento, nosso personagem despertou. Tudo não passava de um pesadelo. Desde criança, temia não conseguir pagar suas dívidas, esse sempre foi seu maior medo.
No sábado, decidiu que encontraria um novo emprego. Andou tanto que se formaram calos em seus pés. Em cada loja, era a mesma desculpa: ele era muito velho para aquela vaga ou não possuía os requisitos básicos. Em determinado momento, ele questionou: "Me explique, por que preciso saber mexer em computador se minha função é apenas limpar os banheiros?" O gerente não esperava uma indireta tão precisa e apenas respondeu que, caso alguém faltasse, ele conseguiria realizar o trabalho.
O final do mês se aproximava, e o aluguel deveria ser pago em dez dias. Até que, ao olhar o jornal, encontrou uma possibilidade de emprego. A vaga exigia um homem acima de 60 anos, com facilidade no trabalho com o público, gostar de crianças e não ter problemas de saúde. A vaga era para um circo itinerante, o que significava que não precisaria pagar por um tempo, receberia comida e abrigo. Sua função seria entreter jovens e crianças.
Na primeira noite, não sabia como seria. Estava bastante ansioso. Foi deixado em uma jaula, e o apresentador convidou o público a descobrir uma espécie rara, não tão jovem como as Pirâmides, nem tão forte como um leão, mas alegre como um palhaço. Nesse momento, a cortina revelou a figura do idoso, e as crianças gritaram de maneira uníssona. O barulho era ensurdecedor. Jogaram comidas nele das mais diversas, escondeu o pesar de uma lágrima solitária em seu olho esquerdo, devido a uma maçã que o atingiu na cabeça. O único pensamento que o sustentava era: "Mesmo nessas condições, o importante é que consigo sobreviver."
INSPIRAÇÃO
Ps:
A imagem do conto foi criado por intermédio de uma IA, Dreamstudio,
digitei "old man headlining circus night, sad inside" e obtive esse resultado.
REFERÊNCIAS
1. Inspirado no conto Artista da fome”, de Franz Kafka;
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Ótimo texto! Parabéns, aguardando os próximos.
ResponderExcluirExcelente !!
ResponderExcluirExcelente texto ,com uma boa dose de crítica social que nos leva a reflexão .
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