"Não era a vaidade que a atraia para o espelho, mas o espanto de descobrir-se"
Uma moça está sentada à mesa do seu quarto, diante de um grande espelho que acabara de ganhar de sua avó. O espelho está família há séculos e ela estava usando-o para deixar seu cabelo como almejava para a festa que teria horas mais tarde. Enquanto alisava o cabelo, ela não viu uma leve inclinação no espelho e cortou a ponta do dedo tão pequena como a ponta de um palito. Mesmo limpando o sangue que respingava, ela não se preocupou com a quantidade insignificante que ficara armazenada. Ela tomou um banho quente, lanchou e já estava a caminho do baile na escola¹.
Na noite anterior, ela apresentava uma dor insuportável nos dentes. Seus pais haviam observado que ser fruto de uma cárie e seria necessário um processo caro, lento e dolorido para ser livrar dela. Entretanto, enquanto estava no banheiro do colégio, constatou enquanto arrumava seu cabelo e passava batom, que não sentia nenhuma dor, nem mesmo ao morder. Seus dentes estava tão brancos como uma nuvem no céu e rígido como uma rocha.
Passou horas dançando com as amigas, e quando retornou ao banheiro, notou que suas roupas não cabiam direito, estavam tão largas que pareciam cortinas. Era como se tivesse perdido peso em poucas horas, e os rapazes não conseguiam desviar o olhar de seus belos atributos, até mesmo as amigas comentaram sobre uma delas estar seguindo uma dieta de frango e peito.
Ao retornar para casa, sentou na cama e pensou no melhor dia que tivera até então. Olhou para o espelho e talvez por conta do sono ou das bebidas, viu uma imagem de uma pessoa ao seu lado, mas não se preocupou com isso. Sentou na cadeira para arrumar os cabelos e constatou estarem mais lisos e não se enrolavam como antes. Refletindo para sua nova imagem, ela se avaliou como tão bela que mesmo se usasse apenas um saco de batatas², qualquer homem não resistiria ao seu encanto. Falando deste modo, parecia uma bruxa.
Entretanto, na manhã seguinte, ela acordou com uma sensação estranha em todo o seu corpo. Olhou-se no espelho e levou um grande susto: estava irreconhecível, seus olhos haviam escurecido, a pele ficara amarelada e as feições estavam distorcidas. Lentamente, ela observou que o espelho que ganhara de sua avó estava amaldiçoado. Ele havia absorvido o seu sangue e a sua vaidade, e agora estava consumindo a sua alma.
INSPIRAÇÃO
1. Analogia com o ambiente do filme e primeiro livro, Carrie a estranha, do mestre do terror Stephen King;
2. Em 1951 o fotografo Earl Theisen fez um ensaio da estrela Marilyn Monroe usando um vestido feito com sacos de batatas;
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Parabéns pelo texto na estilística realismo mágico com análise crítica do narcisismo.
ResponderExcluirÓtimo texto, impactante e reflexivo!
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