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MEMÓRIA AFETIVA

 “Nunca nos devemos envergonhar das nossas lágrimas.” - Charles Dickens

           

    Hoje é o aniversário da minha amada, nada melhor do que criar um livro para quem conquistou o meu coração, não acha leitor? Por essa razão, após retornar do trabalho, tomei um banho, corri para o quarto, tranquei a porta e coloquei fone no ouvido e apertei play, considero uma tarefa mais árdua que encontrar petróleo atualmente conseguir terminar um texto sem uma única melodia.

    Quando a visitei ela estava estonteante como sempre, exibindo um belo vestido preto, quando deu um abraço bem apertado nela, pude desfrutar do aroma doce do seu perfume, seus cachos ainda estavam levemente molhados, ou seja, acabou de sair do banho. Tenho surpresas, ela me exibiu aquele sorriso que adoro contemplar, entreguei uma rosa[1], e o livro autoral ainda lacrado.

    Ela cheirou a rosa e ficou bastante feliz, me abraçou novamente, o livro pedi para abrir diante de mim e começar a ler, pois, desejava saber qual seria sua opinião, apenas disse que iria captar algumas referências ao nosso relacionamento e encontros anteriores, notei que ela abriu os olhos do mesmo modo quando você cativa a curiosidade de uma criança.

    O livro é um pequeno volume de capa dura, ela leu uma fonte enorme na capa, memória afetiva por Gabriel Machado Saccilotto Freitas, quando abriu para investigar o nome dos capítulos, ficou angustiada, pois, apenas segui o exemplo do William Cuthbert Faulkner[2], observou que me especializei na divisão que o mestre do horror[3] gosta de utilizar, quando finalmente começou a ler a primeira parte, comentou que lembrar muito uma união entre distopia e aventura, ao começar a obra, narrando um jovem, enquanto estava na metade do seu destino, o seu avião caiu na ilha, e pelo incrível que pareça a maior preocupação do homem, não é perder sua vida, mas duas, fazer sua amada sofrer por julgar que ele morreu e perder o dia que comemoram o aniversário, dia 17 de cada mês, ou seja, teria apenas 25 dias ou menos para encontrar a civilização novamente.

    Julguei que encontrar comida e viver apenas de coco não seria tão difícil, mas, na prática é quase surreal, ter que usar apenas isso como refeição para todas durante o dia, semana e mês, sempre antes de levantar-se e se deitar, tirava a foto 3x4 que guardo com todas as forças da minha amada ao meu lado, exibindo aquela roupa radiante azul[4] do encontro célebre. Apenas faltando duas semanas do tempo necessário, consegui montar uma jangada e me jogar ao mar, as ondas foram infernais, pensei que morreria ali mesmo como um indigente, mas orei diariamente para Deus me dar mais uma oportunidade de rever o meu amor.

    Despertei como uma fome intensa, minha barriga roncava tão forte que os tubarões consideravam que eu era uma presa desconhecida, tentaram me fazer de aperitivo, com uma faca fiz pequenas incisões nele[5], abri e comi cru mesmo, não poderia deixar minha amada em luto sem minha pessoa. Por uma grande ironia do destino, quando faltava apenas 7 dias, fui engolido por um peixe gigantesco, não cheguei a me tornar um Jonas[6] porque espetei tanto a criatura que me vomitou minutos depois, para minha sorte era em uma civilização, pois observei sinais de urbanização avançada que povos tribais jamais fariam.

    Não gostei que fiz isso, abusei do meu Macunaíma[7] interno, ao furtar a carteira de um senhor, pois foi uma necessidade pegar um trem para conseguir chegar na minha terra, por dentro sentia uma ansiedade a milhão dos pés até a cabeça, invadindo meu corpo, e o coração batendo a cada cidade informada pelo alto-falante, quando pisei os pés no meu lar, nem pensei em trocar de roupas ou cortar os cabelos, apenas fui à loja mais próxima de flores que encontrei, saí com um botão de rosa, toquei a campainha da minha residência, esperei longos minutos, quando abriu a porta, uma morena, de cabelos cacheados me olhou, vestida toda de preto, nem conseguia abrir o portão para mim, sentia-se muito emocionada, apenas disse: “Não precisa antecipar o luto por mim, amor.’’

Gabriel Machado Saccilotto Freitas 17/12/2021, muito feliz mais um mês ao seu lado.

14 meses te fazendo sorrir, saiba que adoro esse sorriso!



[1] Todo aniversário de namoro que celebramos, a presenteio com uma rosa;

[2] Um escritor norte-americano, popularmente conhecido pela obra o Som e a fúria, e possuí uma escrita singular;

[3] Autor norte-americano que gosta de dividir os seus romances em três partes;

[4] O primeiro encontro onde revelei amar ela e sentia algo mais forte, falei antes de partir;

[5] Referência ao filme Invencível, quando o protagonista se alimenta de tubarões para sobreviver;

[6] Referência bíblica da passagem que Jonas é engolido por uma baleia ao se distanciar do local mandado;

[7] Representa o romance célebre de mesmo nome do autor Mário de Andrade. Há uma cena que furta dinheiro.

 


 INSPIRAÇÃO

 
      A ideia central para esse texto pode ser observada logo embaixo. Pensei na sugestão de criar uma carta para quem cativou o meu coração, quando completamos 14 meses de namoro. Enfim, caro leitor (a), espero que sua leitura seja prazerosa!
 
 Ps: A foto é do encontro onde revelei amar a mulher da foto, vulgo Samara.

 

Comentários

  1. SAMARA FERNANDES LEITE1 de janeiro de 2022 às 07:33

    Texto maravilhoso!����
    A saudade é um presente dúbio para quem ama e você conseguiu expressar esse sentimento ao longo do texto.
    Amo você! ��

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