"A alma não tem segredo que o comportamento não revele.'' - Lao-Tsé
DIA 01
Hoje eu matei uma pessoa, pensei que seria mais fácil fazer isso como dizem nos filmes, mas não é nada fácil, ainda mais quando você não dispõe de uma arma de fogo, até agora não entendo qual o motivo, apenas senti uma vontade de me sentir como Lázaro. Há quem diga que a mídia ou videogame influencia as pessoas a cometer fatos que irão se arrepender depois, quem crê nessa teoria sem nexo são políticos e pais alienados.
Minhas mãos ainda estão tremendo, não por conta do esforço que precisei realizar para tirar a vida de uma pessoa que lutou com tanta garra, me senti correndo muito, no final, estava todo suado, com a mente a milhão, pensando em inúmeras coisas, e a primordial que não saia da minha cabeça, o receio de alguém ter visto mesmo de longe e acabar sendo preso por esse crime.
O jovem que matei estava sozinho em um beco, enquanto fumava, era magro, branco, marcas de tatuagem no pescoço, cabelo preto, uma cicatriz profunda no rosto, uma criança que cresceu com a gangue de Twist.
DIA 05
Acordei ouvindo um grito, estava todo molhado em suor, a face do rapaz ainda me perseguia, aquele olhar que até um cego consegue ver, dizendo apenas “Por favor, não me mate.’’ Mesmo assim, o asfixiei com uma corda que carregava na mochila, quando fechei os olhos, me encontrava novamente naquele beco, o cheiro de peixe velho, era possível ouvir os ratos vasculhando o lixo, e perto dali um caminhão de lixo passava.
Foi possível observar como a face da vítima se transformou como um camaleão do branco para o roxo, seu rosto ficou vermelho, e a voz foi sumindo cada vez mais, até se tornar dessa maneira no âmbito literal.
DIA 09
O que eu nunca comentei foi o que fiz após o crime, então, eu decidi colocar o corpo no porta-malas do carro, dessa maneira seria fácil para me livrar, sorte que grande parte dos agentes de segurança estavam na busca de um criminoso na cidade vizinha, ou seja, não seria pego.
Mas ainda sonhava sendo acordado por um policial, me informando ser a pessoa com quem ele apresentava o mandado de prisão, suspeito de um crime hediondo. Desde aquela fatídica noite jamais tive paz novamente.
DIA 12
Sai do banho, me deitando na cama, liguei a televisão, bati palmas para apagar a luz, após essa ação, senti um fedor enorme, tive que segurar o vômito que tentava a todo custo conhecer o exterior, será que o maldito cachorro cagou em casa? Se estivesse certo, iria receber uma grande surra.
Me sentei de joelhos no chão, me abaixando de forma gradativa, quase me esqueci que seria impossível ver, salvo se levantasse a colcha, quando estava quase lá, escutei o barulho de latido vindo da porta, o meu animal, foi tomado por uma violência extrema, quase como se tentasse me alertar de algo.
Quando olhei no canto da cama, observei um ser, estranho, não era humano, fiquei petrificado nesse momento, o cheiro voltou pior ainda, tive que levar a mão direita para cobrir essa merda que sentia com tanta exaltação; quando estava quase se levantando, aquilo me chamou por meu nome, mas como seria possível um animal falar? Me abaixei novamente, pude ver os seus olhos e descobrir quem era. Quem eu matei há duas semanas, voltou para me assombrar, agora os seus olhos não tinham nenhum sinal de tristeza ou raiva, apenas morte.
DIA 20
Toda noite as 20:40, sou visitado por quem eu matei, incrível notar que a cada dia que me atormenta, posso observar como aumenta sua decomposição, pois eu não o enterrei com uma pessoa digna, quebrei os ossos mais longos, e tive a brilhante ideia de colocar uma pessoa de um metro e oitenta dentro de uma bolsa de viagem, imagina o peso desproporcional, e no meio da floresta enterrei, ninguém jamais o encontraria, isso tenho certeza.
Sabia que ele chegou, pois, até o meu cachorro se escondia, nunca consegui trazer nenhuma mulher para cá, quase não dormia, por essa razão ontem, eu fui despedido. Conforme o meu chefe, eu antes, era um homem melhor, mas sabia estar passando por problemas. Até chegou a me indicar um bom psiquiatra. Cheguei em ir em algumas consultas, todavia, mesmo ingerindo as drogas de tarja preta, persistia enxergando quem eu tirei a vida.
DIA 30
Acordei pela tarde, minha roupa estava coberta de sangue, minha cabeça doía, não me sentia bem, quando fui ao banheiro encontrei uma mulher amarrada na banheira, chorando muito, exigindo que a libertasse, seus pulsos estavam amarrados. Loira, branca, usa óculos, cabelo longo, ela apresentava um cheiro estranho, dizendo a voz que habitava a minha cabeça diz que em breve iria conhecer a origem.
Voltando para o quarto, encontrei em cima da bancada um breve texto, como uma confissão:
Sei que não irei sair com vida, por essa razão, tomei o seu corpo enquanto dormia, além disso, para não se safar cometi outro crime mais bárbaro que jamais passará batido, e deixei pistas que farão ainda hoje ser preso. Engoli com dificuldade enquanto lia tais revelações, tive medo quando ouvi barulho da sirene policial na esquina, deveria correr para tentar me salvar.
Escutei três batidas na porta, prontamente, abri sem problemas, me informaram serem policiais e desejavam fazer uma vistoria, pois receberam uma denúncia anônima informando que eu fora o autor de tal fato que corria os jornais. Indaguei sobre o que seria, apenas falou para eu ligar a televisão, toda a mídia exibia informações de um crime horrendo que tirou a mãe da sua filha, após matar três membros da mesma família. O corpo continuava desaparecido.
Os policiais olharam tudo, dentro de qualquer lugar acessível para um corpo, quando estavam na porta, escutei o barulho de um latido alto, oriunda do freezer, haviam me indagado se eu tinha cachorro, apenas balancei a cabeça negativamente. Pela minha surpresa, o cachorro, se encontrava com o corpo da mulher desaparecida, a perícia confirmou o “DNA”, além de eu ter sido autor do crime. Os agentes de segurança, me informaram sobre os meus direitos, me algemaram e me conduziram para o veículo oficial.
Quando já tínhamos saído do meu antigo apartamento, olhei para trás, e observei pela janela, o jovem balançando a mão exibindo cinco dedos, ou na tentativa, pois restava apenas três que a decomposição não afetou.
DIA 980
Fui condenado pelo crime, nenhum advogado teve interesse em defender, sendo necessário um defensor público para realizar o trabalho, mas seria humanamente possível vencer. A sorte que parei de ver aquela imagem do inferno, por essa razão no início vivia me metendo na solitária, enquanto tentava dormir, uma noite, senti o maldito cheiro novamente, até ali me perseguiu o desgraçado.
Me informou que não desejava me matar, apenas ver eu sofrer a cada dia, da mesma maneira que fiz com ele, contudo, fui rápido, e como já morrera, o tempo não seria problema, até eu tomar o mesmo caminho. Comecei tremer novamente, como um ataque de paciente com ausência do tratamento para Parkinson. Viveria dessa forma a partir em diante. Estava colhendo a consequência dos meus atos.
INSPIRAÇÃO

Ótimo texto.
ResponderExcluirAs referências do sofrimento e pertubação ,quando o personagem esconde o crime são dotadas de sistesia e mistério.