''Onde me devo abster da moral, deixo de ter poder." - Johann Goethe
Aline era a filha mais nova, tinha apenas um irmão, Ismael, seis anos mais velho que ela, era conhecida como favorito dos seus pais, pois recordava que desde quando eram crianças a culpa era apenas para suas costas, raramente o outro, era penalizado por seus fatos, de forma indireta os seus pais criaram dois seres totalmente opostos, um recheado de regalias e o outro com uma opressão por qualquer erro, inclusive quando retornasse minutos após o combinado, como vivia sobre o mesmo teto era necessário engolir tais críticas em seco, mas não iria demorar muito para um dia tudo vinhe-se a tona, pois quem guarda para si, explode um dia, ou seja, era um fato inevitável, inclusive ela sabia bem, só desconhecia quando seria.
Seus pais criaram todos com muito amor e "regalias'', como a filha é fascinada por literatura, quando completou doze anos, ganhou dos seus pais alguns livros, dentre eles, uma distopia das mais famosas, a revolução dos bichos, quando terminou de ler, refletiu que a frase final sobre "os animais são mais iguais que os outros" do George Orwell, sintetizava bem o pensamento do que vivenciava diariamente em sua residência, pois não observava a mesma cobrança com seu irmão, isso lhe irritava profundamente, mas tentava ao máximo esconder para não abalar a felicidade que contemplava no brilho dos seus pais, ainda mais quando ambos terminaram a escola, e ingressaram no curso dos sonhos, ela poderia dizer isso ao contrário de alguém, mesmo que às vezes ocorriam atritos ou tentava competir com a irmã, no fundo, requisitava ajuda dela, ainda mais quando era avaliação de uma disciplina que faltavam pontos.
Os responsáveis por eles administravam uma grande empresa no centro de Brasília, há mais de 20 anos no mercado, dava suporte para grandes empresas dos mais diversificados ramos, pois ela desenvolvia tecnologia, ou seja, dinheiro não era um problema nessa casa, salvo durante os primeiros meses durante que foram obrigados a fechar a enorme fábrica, naquela ocasião seria o estopim para a grande discussão que ocorreria naquele jantar com todos os familiares envolvidos na intriga. Era um saco, sabe, registrava em seu diário. Apenas por nascer em um lar cristão, acredito que todos deveriam seguir a risca os princípios que aprendemos na igreja, e não fazer o que ele fez... Isso é detestável. Tal fato, apenas evidência a falta moral que observo há longos anos, não irei ficar calada sobre isso.
Durante o jantar de Natal, todos estavam na mesa, pais, irmão, prima, tio (esse aparecia esporadicamente, unicamente para pedir dinheiro) e a tia não muito bem falada. Após orarem pela comida que detinham na mesa, enquanto muitos não possuem o que comer, começaram a comer de forma gradativa e desse modo, iniciar o diálogo para exterminar aquele clima estranho que o silêncio criava naquele grande salão, sua mãe com muito empenho, fez a melhor comida e como era só um pouco metódica, comprou jogo de talheres e suporte para os pratos com decoração de natal. Tudo corria conforme era planejado, riam da piada que já escutava a centésima vez do seu tio, todo mundo com um sorriso no rosto, até que o irmão mais "sábio'' abriu a boca:
— Irmã, por acaso não seria melhor você tentar concurso público para realmente ser alguém na vida?
Isso se tornou a sessão tarde da noite, todos silenciaram após ouvir essa grande ataque, que não ficaria sem uma resposta digna, isso era previsto, ainda mais conhecendo como minha é filha, pensou a mãe.
— Acredito que você APENAS deva falar caso tivesse duas coisas, gozasse de uma aprovação e pelo menos, não tivesse desistido do exército, pessoas que desistem fácil das coisas morrem sem NADA!
Ismael, ao escutar essa enorme provocação que começara, até cuspiu o refrigerante que tomava no momento. Os pais tentaram acalmar a provável briga, mas seria como a guerra fria, seria impossível de evitar.
— Pelo menos, eu gasto dinheiro com coisas que as outras pessoas irão ver, e não com coisas sem sentido. Livros? HAHAHA, onde poderia ostentar isso? Olhe para mim, sou tão estudioso que gasto até 300 em um pedaço de papel.
Aline, ficou igual a um pimentão. Era notório o olhar de ódio em seus olhos e rosto, por completo.
Bateu com um soco na mesa, e disse:
— ME RESPEITA! Grande coisa ostentar dinheiro, será que por acaso você apenas compra se preocupa com roupas caras, pois sabe que não consegue manter uma única amizade, pois conversar contigo, é tão entediante que prefiro tomar ácido. Respirou profundamente, notando que deixou o irmão indignado, finalizando da seguinte maneira... Possa até ter meus defeitos, mas não tento esconder através de uma doença, ou melhor, NÃO PRECISO PAGAR PARA SER AMADA, diferente de você, né? Explique para os nossos pais o seu presente de 200 reais, que até hoje ninguém sabe onde foi o dinheiro...
Ficou até sem resposta, as festividades natalinas estavam encerradas doravante, provavelmente iria demorar muito ou nunca mais teriam um momento como aquele antes novamente.
Aline bebeu tranquilamente sua água com gás, levantou da mesa, com as chaves do carro e disse:
- Enquanto nossos pais trabalham com afinco quase sem tempo para uma simples atividade recreativa, alguém pega sem avisar dinheiro para algo repugnante, gastar o dinheiro suado de vocês suando ao lado de uma bela PUTA! Vou sair com o meu namorado, caso tenha dúvidas, investigue o extrato do cartão no último mês ou questione sobre ele em relação ao site Skokka.
-NÃO FALE ESSE NOME NA MESA, E OLHE O JEITO DE FALAR COM O SEU IRMÃO!
- Caso vocês tivessem cobrado dele enquanto criança como era exigido de mim, raramente que iria percorrer esse caminho que ele optou por escolha própria, única coisa que possa fazer é orar para me casar o mais rápido possível e NUNCA, nunca mais ver o seu rosto preguiçoso novamente.
Ouviu um grande estrondo da porta de madeiro batendo.
- Ismael, para onde foi mesmo os 200 reais?
Seu rosto era tomado por muito suor, era como estivesse realizando uma prova da pior matéria na época da escola.
- DESCOBRI. Aqui diz, Motel HORA DO PRAZER.... MEU DEUS, onde erramos?

Editoras, não estão vendo isto? É um escritor excepcional. Parabéns, escrita marcante. Orgulho!
ResponderExcluirMuito bom o texto parabéns 👏👏
ResponderExcluirExcelente 👏🏾👏🏾👏🏾
ResponderExcluirParabéns,Gabriel! Adorei o texto!!!
ResponderExcluirExcelente 👏♥️
ResponderExcluirEscrita descritiva e não maçante.
ResponderExcluirAlém de tratar de um tema tão necessário e presente como o mal- estar social em muitas famílias brasileiras.
muitas famílias são quebradas por pequenas coisas materiais
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