"É muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade.'' - Virginia Woolf
Tentei me manter sã, acredito que essa seja a principal dificuldade de um veterano, ainda mais quando volta de um conflito que grande parcela da população é contrária, ainda mais partindo de familiares, vizinhos e políticos. Acredito que uma maneira para evitar isso, seria ter privado os jornais de reproduzir informações sobre o conflito, mas como vivemos em uma Democracia, claro, que isso não ficaria bem-visto como quando tentamos por maneiras "autoritárias'' implementar nosso regime político, em face de muitos jovens no auge da idade que morreram sem nunca ter vivido de fato, e o pior de tudo, para não conquistar nada do que fora planejado, e mesmo fora da farda, nos tornamos mal vistos como um nazista, pensou.
Meu pai serviu na Segunda Guerra Mundial, por conta de um tiro que o deixou inalistável para conflitos futuros, mas não era nada grave que o deixava com grande sequelas ou restrições nas atividades normais do dia a dia, mas como sabe, o Exército é bastante exigente para recrutamento, acredito fortemente que a principal razão é que soldado doente ou "especial'' não gera mortes apenas ocasiona lentidão no procedimento que exige rapidez, ainda mais no campo de batalha. Por esse contato com o dever patriótico, quando estourou o conflito, não perdi tempo e me alistei.
Felizmente quando retornei após o presidente Nixon assinar o cessar-fogo do conflito, esperava ser elogiado pelos meus atos, mas não encontrei nada do que almejava, recordo ainda criança, ia com meus pais, no dia do veterano, contemplava exuberantes veículos militares, soldados que ainda detinham saúde e vigor marchavam com o seu velho uniforme, alguns até detinham furos ou como dizem no linguajar militar, cicatriz, quando surge isso no corpo, muitos tentam fazer o que é possível para apagar, entretanto, não visualizam que há uma razão por qual ela foi gerada em você, há necessidade de ser vista!
Uma noite voltando após sair com meus familiares, na minha primeira semana em casa, visualizamos uma frase horrenda de absurda pichada na frente da porta da casa e na varanda, dizia o seguinte:
AQUI, UM MATADOR DE BEBÊS!
Minha mãe foi tomada por um grande pesar de culpa por me deixar ir, mesmo conhecendo as consequências que toda a família carrega, a pior sensação que senti na vida, nem quando fui obrigado a matar um soldado com minha própria baioneta, por conta de estar nas linhas inimigas, o som da arma de fogo seria a minha sentença de morte, observei o mesmo rosto de temor e tristeza que notei em meus pais, era nítido a raiva e tristeza em ambos, meu pai não falou nada, apenas ficou quando era pequeno e quebrava algo da sua caixa de ferramentas, já minha mãe chorava e fungava muito forte, como quando estamos com alergia no dia do funeral do seu filho mais novo.
Passei muitas horas antes de simplesmente apagar no sono, tentando limpar aquela tinta, consegui, mas olhando de bem perto, ainda existia uma pequena possibilidade de ler o que registraram. Quando tentei arrumar emprego na escola municipal, me chamaram para a entrevista, correu tudo conforme esperado, antes de sair, olhei para a direita e vi um veterano com o uniforme completo de oficial, suspirei tranquilo, deduzia que não iria gerar problema o fato de ter lutado na guerra e trabalhar em uma escola evangélica.
Três dias após a entrevista, recebi uma ligação, me informando que não poderiam me contratar, pois, o diretor olhou melhor os meus documentos, descobrindo que servi no último grande conflito que os EUA lutaram, até me elogiou por voltar vivo, mas de acordo com alguns pais, não seria possível para os padrões curriculares daquela instituição de ensino, até pensei em contratar um advogado, mas provavelmente iria perder a ação, pois não detinha nenhum recurso, fiquei bastante furioso, apenas fui cordial e desliguei.
Hoje, trabalho como vendedor em uma loja de colchões, e mesmo ganhando quase nada pelo menos estou em um local digno, tentando me manter e ir morar sozinho, talvez seja a melhor coisa. Até hoje, acredito que o diretor daquela escola não me contratou pelo motivo apresentado, pois vi outra pessoa que lutou, isso é o que gera enorme raiva em minha pessoa, porque geralmente dizem serem contra algo, mas por trás dos panos abre determinada exceção. Enfim, valeu a pena ter lutado? NÃO, digo isso do fundo da alma, nada paga os abalos psicológicos (mesmo com tratamento contínuo não serão curados) e quase sempre ausência do Governo Federal para introduzir muitos jovens que se tornaram deficientes no mercado de trabalho, pense comigo, se é difícil eu encontrar trabalho, imagina uma pessoa que precisa assistência por não ter uma das mãos ou nem consegue ir ao banheiro, sozinha? A guerra não faz o ser humano avançar, apenas retorna para quando era um bebê!
INSPIRAÇÃO

Parabéns pelo texto,Gabriel! Uma ótima reflexão para olharmos para o próximo com empatia. Um abraço!
ResponderExcluirUmmm , tive a oportunidade que conhecer varios Sobrevivente de guerra e a suas histórias sãoIncríveis e assustadoras eles vive Aterrorizado
ResponderExcluirBelo texto! Sucesso cunhadinho.
ResponderExcluirO texto é amplo pois é capaz abranger não somente o sofrimento psíquico de veteranos,mas desperta uma crítica sociológica ao adentrar nas consequências de conflito de interesses das lideranças que estimularam os conflitos.
ResponderExcluirQue texto!!! Pecisamos estar mais sensiveis ao proximo, ter mais empatia.
ResponderExcluirParabéns pelo texto ,ótima reflexão 👏
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