Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de janeiro, 2026

A FLORESTA VERTICAL

''O trabalho poupa-nos de três grandes males: tédio, vício e necessidade.'' Voltaire         O meu gancho de titânio rangeu contra a argamassa solta do Edifício Século. Dezessete andares de fachada art déco escura se erguiam acima de mim, um penhasco de terracota e desdém. A cidade era um tapete de luzes cintilantes lá embaixo, um mundo separado por vidro e vento. Respirei fundo, o ar frio da altitude queimando meus pulmões. Aquele cheiro era familiar, uma mistura de fuligem antiga e abandono. Era meu território de caça. Eles me chamavam de caçador de céu, um título pomposo para um catador de lixo tecnológico das alturas. Minha empresa terceirizada me pagava para recuperar drones de entrega, aqueles zangões teimosos que emperravam em parapeitos e antenas. O trabalho sujo da nova economia.      Aquele trabalho era diferente. A mensagem chegou por um canal criptografado que eu nem sabia ainda possuir. Ofereciam o triplo da minha taxa por uma hora d...

O SUSSURRO NO VÁCUO

''Na realidade, não conhecemos nada, pois a verdade está no íntimo.'' Demócrito             O silêncio do vácuo engoliu todos os sons da nave Cronus, exceto o sussurro fantasma do sistema de suporte de vida. Nossos trajes, grossos e pálidos, rangiam com cada movimento na antessala despressurizada. A estação de pesquisa Cela-9, um tumor metálico grudado no asteróide GM-87, flutuava contra o pano de fundo de um infinito carvão. Nenhuma luz piscava em suas vigias, nenhum sinal de vida respondia aos nossos chamados. Nossas lanternas cortaram a escuridão, revelando a cicatriz de uma escotilha forçada, suas bordas retorcidas para dentro, como se algo enorme a tivesse arrancado com fria deliberação. O ar que escapava era velho, estagnado, e carregava o odor metálico e adocicado de sangue decomposto misturado ao cheiro ácido de fluidos de circuito vazados. Entramos.           O corredor principal exibia uma cartografia do caos. P...

O SEMEADOR DE FALHAS

 ''A grandeza exige sacrifícios.''   Friedrich Schiller        O visor do corredor C-17 pulsou em âmbar quando dobrei a esquina, e o som agudo atravessou o capacete como um dente batendo em vidro. O cheiro ácido denunciava algo errado antes mesmo de eu alcançar o painel, uma presença invisível que arranhava a garganta. Apoiei a mão no metal frio e puxei o mundo para trás, sentindo a pressão conhecida na base do crânio. O vazamento nunca aconteceu, o alerta recuou, e o corredor voltou a fingir normalidade. Afastei-me rápido, porque permanecer depois do conserto sempre deixava rastros, e rastros fazem perguntas.      Meu trabalho nunca exigiu aplausos, apenas silêncio contínuo. As pessoas dormiam, amavam, brigavam por ninharias, enquanto eu aparava arestas do destino com movimentos mínimos e discretos. No caminho até o núcleo, passei por um salão de cultivo onde folhas largas flutuavam sob luz artificial, e uma mulher cantava para ningué...

PREÇO DO ASFALTO

''Lutar contra a injustiça custa-me mais do que sofrê-la.'' Jeanne Roland        Meu nome é  Gael. O despertador toca às 4h17. Meu corpo já está em movimento antes da mente acordar. Escuridão úmida do quarto de taipa. Saio em silêncio, desviando do buraco no assoalho. A rua ainda pertence à noite e aos traficantes do Morro da Serpente, mas tenho um salvo-conduto: minhas pernas.      Corro  dois quilômetros até o ponto de ônibus. É meu primeiro treino do dia. O ônibus 975 chega com os faróis cegos de sono. Dentro, balanço em pé. Às 18h, volto. O centro de treinamento é meu portal para outro mundo, um mundo de linhas retas, regras justas e cronômetros que não mentem. Lá, meu tempo é o que importa. No morro, o que importa é sobreviver ao tempo.      Foi numa quarta-feira, depois do treino. Estava a três quarteirões do portão do centro, na calçada da Avenida das Flores. A via larga, lisa, que separa o bairro dos ricos da beirada d...

O CASO DA FAZENDA PERDIDA

  ‘’Para nós dois, “casa” não é um lugar. É uma pessoa.’’ Stephanie Perkins   Meu nome é Gabriel, e em 2025 troquei a segurança do meu escritório de advocacia em Brasília pelo ar carregado de poeira e mistério do interior de Goiás. Tudo por uma história mal contada, um testamento desaparecido e, principalmente, por Samara. Foi ela quem me puxou para essa aventura. Eu, com minha paixão por livros de história empoeirados e minha habilidade de rastrear qualquer informação em bancos de dados públicos ou não tão públicos assim, achava que estava preparado para qualquer coisa. Samara, com seus olhos castanhos que pareciam enxergar padrões onde eu só via caos, sabia que não estávamos. “É a Rainha do Crime, mas no Cerrado, Gabriel,” ela disse, o vento brincando com seus cachos enrolados, rebeldes como o espírito dela. “Aqui, as pistas não estão nos e-mails, estão na terra.” Nosso cliente era uma senhora de mais de noventa anos, Dona Iolanda. Ela acreditava que sua família ...