''Não quero a beleza, quero a identidade.'' Clarice Lispector Encontrei Lira quando o sol ainda tateava o horizonte, e o rio, inquieto, refletia cores que não pertenciam à madrugada. Caminhei até ela porque o ar ali mudava de densidade, como se aquele instante respirasse por conta própria. A jovem mantinha as mãos abertas sobre a água, e faíscas percorriam seus dedos como insetos luminosos. A correnteza formava redemoinhos sob seus pés, embora nada mais na paisagem se movesse. Senti um calor crescer no peito, não por curiosidade, mas porque algo dentro de mim reconhecia o impossível. Aproximo-me da chamuscada, e seu olhar atravessa a paisagem como se buscasse um nome que o vento se recusa a entregar. Os troncos ao redor envergam-se discretamente, quase como se prestassem reverência ao caminho que ela escolhe. Sigo-a porque meu corpo se antecipa às escolhas da mente, guiado por presságios que eu jurava ter esquecido. Cad...
Textos novos semanalmente!