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Mostrando postagens de novembro, 2025

FOLHAS INCANDESCENTES

 ''Não quero a beleza, quero a identidade.''   Clarice Lispector        Encontrei Lira quando o sol ainda tateava o horizonte, e o rio, inquieto, refletia cores que não pertenciam à madrugada. Caminhei até ela porque o ar ali mudava de densidade, como se aquele instante respirasse por conta própria. A jovem mantinha as mãos abertas sobre a água, e faíscas percorriam seus dedos como insetos luminosos. A correnteza formava redemoinhos sob seus pés, embora nada mais na paisagem se movesse. Senti um calor crescer no peito, não por curiosidade, mas porque algo dentro de mim reconhecia o impossível.      Aproximo-me da chamuscada, e seu olhar atravessa a paisagem como se buscasse um nome que o vento se recusa a entregar. Os troncos ao redor envergam-se discretamente, quase como se prestassem reverência ao caminho que ela escolhe. Sigo-a porque meu corpo se antecipa às escolhas da mente, guiado por presságios que eu jurava ter esquecido. Cad...

O ESPELHO DAS SERPENTES

''Não se preocupe com a perfeição - você nunca irá consegui-la.''   Salvador Dalí      O espelho chegou em uma manhã cinzenta de terça-feira, seu quadro pesado de ébano escurecendo ainda mais o tom sombrio do nosso apartamento. Eu e Clara havíamos comprado a peça em um ato desesperado, uma tentativa silenciosa de preencher o vazio que crescia entre nós com um objeto de beleza sólida e antiga. A moldura era uma serreira de serpentes entalhadas que pareciam devorar umas às outras em um ciclo eterno e inquietante. A primeira vez que percebi algo errado foi um dia após sua instalação, quando meu reflexo não correspondia à minha postura real na sala. Eu estava de pé perto da estante, mas na superfície prateada, minha imagem estava sentada no sofá, com a cabeça da minha esposa repousada em meu colo em um gesto de ternura que há muito havia desaparecido de nossa rotina. A figura de Clara no espelho sorria suavemente, enquanto meus dedos espelhados acariciavam seus lo...

O SILÊNCIO QUE GRITA

 ''Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras.''  Marcel Proust      Minhas mãos ainda tremem ao registrar isso. Kèplar-7 é um planeta de pesadelo envolto em beleza celestial. Chegamos há quarenta e sete dias a esta biosfera que desafia toda lógica,  um mundo de florestas exuberantes sob um céu cor de pêssego, onde a vida explode em cores impossíveis, mas nunca, nunca emite um som. As árvores prateadas se entrelaçam formandos catedrais vivas, suas folhas exibindo padrões complexos em âmbar, carmesim e jade que mudam constantemente. E esse silêncio... esse silêncio que nos envolve como um cobertor pesado. Nossas vozes soam grosseiras aqui, nossas botas esmagam a vegetação esponjosa com um barulho que parece uma blasfêmia. Até a respiração nos trajes ecoa alto demais nesta catedral de quietude.      Os dados dos sensores nos mostram a verdade irrefutável,  a biomassa é maior que a de qualqu...

COBRAS FUMANTES

''Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!''   Miguel de Cervantes                A lama da Itália não era somente água e terra, era uma entidade viva e faminta, um lodo gelado que se agarrava às nossas botas com determinação feroz. Cada passo para frente naquela encosta encharcada era uma vitória fugaz contra a sucção que tentava nos manter presos, estáticos, alvos perfeitos para a chuva de aço que caía do céu. Os estilhaços da artilharia alemã cantavam um hino estridente e mortal, silvando por cima de nossos capacetes enquanto cavávamos covas rasas com as próprias mãos. O ar que respirávamos era uma mistura pesada de odores de pesadelo, o cheiro adocicado e nauseante de carne putrefata se misturando ao ferro do sangue recente e ao suor azedo de corpos levados ao limite. Meu uniforme, uma extensão de minha pele, estava impregnado de graxa, terra e das manchas escuras e salpicadas que eram os últimos vestígios do Manoel. A m...