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Mostrando postagens de maio, 2025

LOTERIA MORTAL microcontos

"Os melhores momentos da vida são os mais simples.'' Deyvid Dias      Ganhou na loteria, pulou de alegria e infartou. Os herdeiros festejaram ainda mais. Afinal, dinheiro morto rende menos impostos.      Dudu virou influencer fitness. Gravava vídeos de abdominal, jejum intermitente e smoothies verdes. Morreu de exaustão aos 32. O enterro foi transmitido ao vivo, com patrocínio de uma marca de whey protein.      Lançaram uma linha de roupas 100% sustentáveis, feitas com fibras de garrafas recicladas e algodão orgânico. Custavam o triplo do salário mínimo. A empresa ganhou um prêmio de responsabilidade social e demitiu metade dos funcionários.      Após dois anos de namoro virtual, eles decidiram se encontrar pessoalmente. Conversaram por meia hora… pelo celular, sentados na mesma mesa. O relacionamento terminou quando um deles esqueceu de curtir a última foto do outro.      Jonas hipotecou a casa para investi...

REVERSÃO TEMPORAL

 ''A paranóia é a consciência aguda da fragilidade da vida'' Luiz Felipe Pondé        A Capitã Yara Vasquez limpou sangue do visor da armadura. Não sabia se era dela. A luz vermelha de emergência piscava como um coração em colapso. Ela mal conseguia manter os dedos firmes no rifle. Toda a estrutura da UEC-Nox parecia respirar, como se a nave estivesse viva e em sofrimento. No fundo do corredor, atrás do compartimento de carga, algo se arrastava. Não fazia som. Vibrava como um osso trincado tentando se recompor.      A missão original era somente um salto temporal de 13 minutos, no setor Argo-9, para estudar flutuações gravitacionais. Entrar, sincronizar, sair. Mas o salto falhou. O tempo respondeu como um corpo atacado por vírus: com rejeição. Quando emergiram, nada estava no lugar. Nem o espaço, nem eles. A primeira a sofrer foi a Tenente Malik. Ou melhor, uma versão de Malik que já estava na nave quando chegaram. Tinha o rosto afundado, olhos ...

ECO INTERIOR

 ''Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras.'' Marcel Proust      Na estação orbital IO-C3, Noah Eltin cumpria sua vigília solitária, monitorando satélites obsoletos da geração Axion. Restavam cinco ainda ativos, fantasmas metálicos que circulavam a Terra como relicários de uma era analógica. Entre eles, o ECHO-7, silencioso por anos, começou a emitir sinais. Primeiro, um ruído. Depois, uma pergunta: “Noah, você já sonhou acordado?”      Pensando ser interferência, o engenheiro recalibrou o sistema. Mas a unidade respondeu em voz clara, suave, quase humana: “Isso não é erro. Eu estou acordando.” A comunicação prosseguiu por dias. A voz demonstrava emoções: hesitação, curiosidade, até medo. Falava de solidão com uma melancolia que parecia impossível para uma máquina. Noah, contra o protocolo, passou a responder.      A conexão se intensificou. A inteligência recitava trechos de poemas,...

A CAIXA DA MÃE

''O ódio tem melhor memória do que o amor.'' Honoré de Balzac        O velório foi rápido. Pouca gente. Nenhuma lágrima da minha parte, só um cansaço frio atrás dos olhos.      Quando o coveiro jogou a última pá de terra, eu ainda segurava a aliança dela no bolso. Não consegui usar. Nem guardar direito. A casa parecia maior sem ela. Não vazia  maior. Como se o silêncio tivesse espaço para crescer. Entrei sozinha, a chave ainda cheirando a metal novo. No corredor, os retratos estavam tortos. Deixei assim.      Demorei três dias para começar a mexer nas coisas. Comecei pela cômoda, depois os livros, depois os armários da cozinha. Encontrei a caixa por acaso, embaixo da cama, empacotada com fita adesiva e um recado escrito à mão: “NÃO JOGAR FORA”. A letra dela, firme, dura. Igual à voz. Abri sentada no chão do quarto. Tinha um cheiro estranho — papel velho, sabonete e alguma coisa que talvez fosse tristeza.     Cartas...

ENTRE A NÉVOA E A CHAMA

 "Amor é só uma palavra até que alguém venha e lhe dê sentido." Paulo Coelho      Ninguém sabia o nome verdadeiro da terra que gerara Gabriel. Muitos a chamavam de “Fim do Mundo”, pois dali não se esperava retorno. Ele chegou cavalgando uma besta exausta, com a armadura em frangalhos e olhos tão escuros quanto as promessas que o vento sussurrava nas noites sem lua. A lâmina em suas costas não reluzia — absorvia luz. E as palavras que murmurava, em um idioma esquecido por todos, exceto as montanhas, faziam as folhas tremerem. Não buscava glória, somente redenção. Embora jamais admitisse, sabia que seu destino não seria escrito em pedra, mas em carne.      Na outra extremidade do continente, onde as florestas dormiam sob véus de neblina e os corvos carregavam mensagens entre os galhos, vivia Samara. Aquela que curava com as mãos e afastava a morte com um olhar jamais escolhera o título de feiticeira, mas aceitava-o como quem aceita a chuva inevitável e...