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Mostrando postagens de setembro, 2024

O IMPÉRIO QUE NUNCA CAIU

 “Uma coisa tão Simples, quanto o bater de asas de uma borboleta, pode causar um tufão do outro lado do mundo.”Efeito Borboleta      Naquela manhã de junho de 1815, Jean já havia alterado o curso dos acontecimentos ao sabotar as mensagens que Wellington enviara a Blücher, garantindo que os prussianos jamais chegassem a tempo. Agora, assistia, oculto entre as fileiras francesas, ao desenrolar da batalha. As tropas de Napoleão, revitalizadas pela ausência dos reforços inimigos, lançavam um último ataque decisivo, rompendo as linhas britânicas.      Quando o sol se pôs, o campo estava coberto de corpos, mas a bandeira tricolor ainda tremulava. Napoleão, coberto de lama e sangue, olhou ao longe, seu rosto exausto, mas cheio de triunfo. Ele havia vencido, mais uma vez. Jean sentiu uma onda de euforia, convencido de que o futuro seria melhor por causa de sua intervenção.      Jean despertou num mundo diferente. Retornara ao seu present...

NÚMERO 47

''O homem que não sabe dominar os seus instintos, é sempre escravo daqueles que se propõem satisfazê-los.'' Gustave Le Bon      Eu sou o Número 47. Não tenho nome, nunca precisei de um. Quando você se torna uma cobaia, o nome é a primeira coisa a ir embora. Eles me dizem ser um detalhe irrelevante. Não sou uma pessoa. Sou uma arma em construção.      Os dias são indistinguíveis. Horas sem fim em uma cela branca, onde as paredes parecem vivas, pulsando com energia, a luz fluorescente sempre vibrante, irritando meus olhos. O zumbido das máquinas nunca para. Estou sempre à espera. Do quê, exatamente, eu nunca sei.      Há tempos fui submetido ao que eles chamam de “recondicionamento neural”. É uma forma suave de dizer tortura. A cada sessão, sinto meu cérebro pulsar de dor, como se alguém estivesse enfiando um furador de gelo em minhas têmporas e torcendo devagar. Choques. Luzes piscando em padrões que parecem dançar atrás dos meus olhos, se...

MERCADO DE EMOÇÕES

 ''Não somos responsáveis pelas emoções, mas sim pelo que fazemos com as emoções.'' Jorge Bucay      O despertador tocou às seis da manhã, e o som cortante rasgou a pequena sala com a precisão de uma lâmina. Anna estendeu o braço trêmulo para silenciá-lo, hesitando por um breve segundo antes de puxar o cobertor sobre o rosto. Lá fora, a cidade começava a acordar; passos apressados ecoavam pelas calçadas, e o ruído de carros enchendo as ruas era abafado pelas cortinas pesadas e empoeiradas. Um novo dia — ou melhor, um dia igual a todos os outros.      Ela se levantou devagar, sentindo os músculos das pernas doloridos, como se tivessem sido substituídos por chumbo. Caminhou até o espelho e olhou para si mesma, os olhos cansados, o rosto pálido, vazio de expressão. Já fazia quanto tempo desde que vendera a primeira emoção? Ela mal conseguia se lembrar.      O conceito, quando surgiu pela primeira vez, parecia impossível. Vender emoções? Um...

CORAÇÃO SUBMERSO

  “O peso de seu abraço, o som da sua voz, aquela sensação muito especial de estar repartindo.’’ David Gerrold   Gabriel sempre fora fascinado pelo mar. Seus olhos cinzentos brilhavam de expectativa enquanto ajustava a máscara de mergulho, o cabelo preto e liso se movendo levemente ao sabor da brisa marítima. Ao seu lado, Samara, com seus cabelos cacheados e olhos cheios de vida, sentia uma excitação semelhante. As histórias sobre a caverna subaquática que eles estavam prestes a explorar os intrigavam há meses. Contos antigos diziam que aqueles que se aventuravam nas profundezas da caverna podiam ouvir os sussurros dos amantes perdidos no mar, almas que nunca encontraram descanso. O casal mergulhou na água cristalina, seus movimentos sincronizados como se fossem um só. A luz do sol atravessava a superfície, criando um jogo de luz e sombras que parecia dançar em torno deles. Enquanto desciam, a temperatura da água caía, e o mundo à sua volta se tornava um azul profundo e ...