“Que Deus faça de mim verdadeiramente útil.” - Margaret Atwood
Em 3500 o planeta Terra foi quase totalmente ceifada. A população sobrevivente agora reside em dez grandes centros urbanos com domo para proteger do Sol. A partir do ano seguinte, para garantir que a espécie humana continuasse existindo, foi instituída duas leis inalteráveis, onde a primeira apontava ser obrigatória ter uma vida sustentável; e a segunda, apontava para proibição total da reprodução, apenas quem for apontado como digno pode conceber descendentes.
Meu nome é Frida¹, minha mãe sempre evidenciou o dom belo que Deus trouxe na criação para as mulheres, a gestação, "É a melhor coisa que você pode desfrutar nessa vida, minha querida''. Jamais compreendi realmente, por qual motivo, há mulheres que anseiam tanto por algo que irá lhes tirar sua liberdade, vida e viverá como uma empregada remunerada para sempre, pensou.
Quando completei dezoito anos, acabara de chegar em casa do colégio, encontrei uma carta com meu nome, para evitar pertubações do demônio contra a maternidade, foi banida no ambiente domiciliar qualquer contato com tecnologia externa, vulgo, internet. Aparenta ser um papel bastante velho, dourado, com um laço rosa, continha o meu nome escrito em vogal maiúscula, quando abri o envelope, continha uma carta apenas avisando que fui escolhida como um ser digno, creio que principalmente para o leitor, crê que adorei cada detalhe, mas odiei do fundo do meu coração, inclusive rasguei a carta no máximo de pedaços que pude, e joguei no fogo;
Mamãe andava inquieta de um lado para o outro, creio que já esperava eu ser escolhido, como omiti qualquer informação sobre isso, ela ficou bastante ansiosa para ver sua princesa contribuir para nosso belo sistema. Se passaram cinco dias, até que recebi na minha porta um homem, se identificou como oficial, mostrou um documento onde continha todas as informações sobre mim, falou que iria me conduzir querendo ou não para cumprir o meu papel na sua sociedade. Não demonstrei nenhuma reação ou resistência, quando estava abrindo a porta do carro, apenas dei um soco bem forte no seu pescoço, caiu tão rígido como um saco de batata. Saí correndo sem saber para onde iria.
No mesmo dia pela noite, me encontraram quando tentava com meu disfarce embarcar em um táxi na principal zona comercial da capital, ali existiam inúmeras câmeras e segurança, que até mesmo Orwell² ficaria abismado, quando estava abrindo a porta laranja, alguém segurou meu braço, e gritou aos demais dizendo ter encontrado a indigna. Puxei com violência meu braço e o arranhei, corri em direção a um beco, ali, descobri que não haveria escapatória, nesse momento, drones registravam minha tentativa falha de fuga, o suor era expressivo em meu rosto e no resto do corpo, só tinha uma maneira de me salvar, deveria fazer aquilo, tirei uma tesoura do meu bolso, os agentes recuaram com receio de usar como arma, mas não seria com eles que a usaria, Enfiei rapidamente dentro do meu short, em curto espaço de tempo, começou a ficar todo vermelho.
Não morri por conta do ferimento, mas em decorrência do tiro que levei na cabeça, do agente, ficou diante de mim, balançando a cabeça de maneira negativa e triste, apenas disse bem alto para eu ouvir "Agora, você além de se tornar uma indigna, se tornara improdutiva para espécie''. Fechei os olhos, senti uma dor latente, infelizmente, não morria de imediato. Quando se mata uma mulher, milhares que nem sentiram aquela dor também morrem.
1. Frida Kahlo foi um ícone feminino nas artes. A pintora mexicana retratava em seus quadros as tragédias de sua vida;
2. Analogia com o romance 1984 do escritor inglês, George Orwell, a obra trata descreve a existência sufocante dos indivíduos que vivem num sistema de opressão e autoritarismo de vigilância.
Como observou ontra fonte foi o livro o Conto de Aia, da escritora canadense, Margaret Atwood.

Parabéns, ótimo texto.
ResponderExcluirMuitas referências distópicas e permeando o tema.
Excelente !
ResponderExcluirReflexivo e atual 👏