"O comportamento é um espelho no qual todos mostramos o que somos." - Alfred Montapert
Caro diário, fui ensinada desde pequena que não poderia abrir a boca a não ser para comer, fui criada como uma bicho, jamais aprendi a falar como os outros, quando ingressei na escola, sempre ficava retraída e a professora reclamava com a velha senhora que cuidava de mim, infelizmente ela jamais teve paciência comigo e muito tempo para me tratar como sua filha, por isso, decidiu que a cada atitude feita apressada ou errada, eu sentirei na pele por qual motivo seria melhor eu não abrir minha boca, durante a noite, uma voz falou diante de mim: "Criança, ordinária, vá para o seu quarto, e não saia comendo tudo igual um animal, seja como meu cachorro, ele pelo menos tem modos". Andava lentamente pelo longo corredor, até chegar na grande escada para o subsolo, minha blusa estava encharcada.
Provavelmente deve estar supondo que o meu quarto é grande, belo, todo pintado de rosa e com brinquedos infantis, saiba que está totalmente enganado, eu vivo no que ela classifica como lugar apropriado para mim, meu grande sonho era ter força e ser maior para não tolerar isso mais nenhum dia, infelizmente me encontro aqui, no lugar que preciso dividir com suprimentos e equipamentos tão velhos que ocasionalmente, eu posso até escutar barulho oriundo das caixas, nunca tive coragem de abrir, para minha sorte, ao meu lado, tinha o meu urso já sem olho, de cor bege claro, todo peludo, quando despertei na madrugada, dei um beijo no meu ursinho, e começou a se mexer, quando acendi a luz, gritei o mais alto que pude, era um rato, bastante gordo, é maior que o cachorro da governanta, naquele dia aprendi que jamais deveria gritar quando as pessoas dormem, minhas costas doíam como um cão atropelado, dormi novamente em lágrimas.
O melhor dia da minha vida nem era o meu aniversário, se tornou quando a mulher da assistência social ia nos visitar, eu podia tomar banho, ficar cheirosa, comer do melhor que aquela residência poderia me prover, e ficar no quarto que deveria ser meu, ali, era como desejava, todo branco e rosa, uma casa enorme de bonecas para eu brincar e um pássaro para me fazer companhia, engraçado que aquela espécie geralmente fala muito, mas até ele tem medo da senhora, descobri isso lendo em um livro, grandes fatos sobre os animais, já que desde a síndrome de Mowgli que me atingiu segundo o doutor que me consultou, jamais retornei para a escola, quando pegava um livro, deveria fingir estar lendo e demonstrar um belo sorriso, e ressaltar ser tão amada ali e que adorava minha avó.
Durante a visita da assistente social, ela era a pessoa que gostaria que me adotasse, uma pessoa que adora as crianças e jamais me traria como sou tratada, mas deveria continuar com as mentiras, quando a minha "avó'' pegou o livro para mim, e me entregou, enquanto baixava a cabeça em minha direção para beijar minha testa, disse bem baixo para que apenas eu conseguisse ouvir: "Se comporte bem, ou você irá se encontrar com seus pais.'' Mamãe e papai, morreram há um ano durante a guerra que assolou nosso antigo lar.
INSPIRAÇÃO
Texto incrível, foi além do que imaginei,pois abordou um amordaçamento do ser humano.
ResponderExcluirTexto muito bom. Reflexivo e muito atual.
ResponderExcluirAltamente reflexivo e aterrador.
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